130 anos do Observatório do Valongo

 

O Observatório do Valongo, Rio de Janeiro, foi fundado em 1881 pelo astrônomo, engenheiro e artista plástico Manuel Pereira Reis, nascido em Salvador, Bahia, a 12 de novembro de 1837. Filho de Joaquim Pereira Reis, livreiro e professor de desenho, pintura e arquitetura, com Ana Bernardina Moreira Sampaio, passou Pereira Reis a infância na cidade natal. Com o falecimento do pai, em 1855, veio para o Rio de Janeiro em março do ano seguinte, com um cruzado no bolso e uma carta de recomendação para os frades do mosteiro de São Bento, onde passou a estudar. Em 1857, matriculou-se na Academia Imperial de Belas Artes.

         Seu interesse pela Astronomia levou-o a se matricular na Escola Central, onde concluiu o curso de Engenharia Civil e se bacharelou em Ciências Físicas e Matemáticas, em 1872. Nesse mesmo ano, foi nomeado chefe da seção da Comissão da Carta Geral do Império, na época sob a chefia do Marechal Beaurepaire Rohan. Na qualidade de engenheiro dessa comissão, realizou estudos sobre a latitude do Imperial Observatório Astronômico.

         Em 1879, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, como substituto do professor de desenho do curso de ciências físicas e matemáticas.

         Convidado pelo Barão de Ponte Ribeiro, Ministro do Estrangeiro, para chefiar a comissão de limites Brasil-Bolívia, não aceitou por estar exercendo na época o cargo de chefe da Comissão de Estudos Geográficos no Rio Grande do Sul.

         Em 31 de março de 1876, o Ministro da Guerra lhe conferiu o título de Primeiro Astrônomo do Imperial Observatório, bem como o de substituto do Diretor. Mais tarde, em 27 de julho, foi designado chefe da Comissão Astronômica do Ministério da Agricultura, destinada a estudar a latitude e longitude entre o Imperial Observatório e a Barra de Piraí, onde instalou um observatório. Nesse estudo, bem como na determinação das posições geográficas entre o Observatório do Rio de Janeiro e as cidades de São João e Rio Claro, assim como na triangulação do rio Tieté, no rio Paraná, com objetivos geodésicos, Pereira Reis aplicou os mais modernos processos existentes na época. Em conseqüência, foi elogiado por Emmanuel Liais e Otto Struve e citado no principal anuário dos avanços científicos – L’Année scientifique et industrielle de 1877 - editado em Paris, por Louis Figuier, que sobre o assunto também escreveu carta a D. Pedro II.

         Em julho de 1880, Pereira Reis e os seus colegas Joaquim Galdino Pimentel e André G. Paulo de Frontin, após terem doado à Escola Politécnica um terreno no morro de Santo Antônio, solicitaram autorização ao Ministro do Império, Sodré, que ali fosse instalado um observatório astronômico, em substituição ao que funcionava em caráter precário em um terraço do prédio da Escola. Assim surgiu, primeiro no Morro de Santo Antônio de 1881 até 1924, e, depois, na chácara do Valongo, no morro da Conceição, a instituição que passou a ser designada de Observatório do Valongo, que, durante um determinado período, possuiu o maior instrumento astronômico instalado, no Brasil, uma luneta Cooke de 32cm.

         As atividades do Observatório do morro de Santo Antônio iniciaram em 30 de setembro de 1880, com o auxílio dos professores Bitencourt da Silva, J. Galdino Pimentel, Paulo de Frontin, Ortiz Monteiro, Barão de Teffé, Índio do Brasil, Américo B. Silvado, Tancredo Janffret e Adolfo Pinheiro, estes cinco últimos oficiais da Marinha.

         Em 1881, Pereira Reis passou a catedrático da cadeira de Astronomia e Geodésia da Escola Politécnica ao defender a tese Teoria Completa dos Cometas, em 20 de abril de 1881.

         Seu planisfério celeste O céu (1881), editado pela litografia Paulo Robin, com gravação executada por Vilas Boas, da Casa da Moeda, fez com que fosse chamado por Raimundo Teixeira Mendes para colaborar, com Décio Vilares, no estabelecimento do aspecto do céu na manhã do dia 15 de novembro, que seria reproduzido na Bandeira Nacional.

         Após sua aposentadoria, em 1913, voltou de novo à pintura. Faleceu a 26 de junho de 1922 na cidade de Barbacena, onde deixou um terreno destinado à construção de um observatório astronômico.

         Sua personalidade de idealista e homem culto foi muito bem caracterizada nestes versos de Basto Tigre:

         Tua cabeça - um cofre em cujo fundo

         Se enfileiram milhões ... de xdx-

         Há de ascender a ignotos alcantis

         Onde a Lua reside e o Sol fecundo

         Leva além da ciência o vasto Império! 

         Novas leis, novas sóis, novos planetas

         Vai arrancando à sombra dos mistérios!

 

* Astrônomo, escritor e autor de mais de 90 livros, dentre eles 'Anuário de Astronomia e Astronáutica 2011'