A chacina de Realengo

 

Passados algumas semanas do maior massacre ocorrido em uma escola brasileira,  ofuscado pelo grande interesse despertado na morte do terrorista Osama Bin Laden, ainda tentamos entender os  motivos que levaram o assassino a cometer tal brutalidade com tamanho ódio, um crime que, certamente, ficará armazenado por muito tempo em nossas memórias como exemplo de barbárie humana. 

Mas de tudo o que já foi dito ou escrito, o episódio deve servir de  alerta às autoridades brasileiras e à sociedade como um todo. Poucos aspectos diferenciam o perfil do assassino de Realengo com o de milhares de crianças e adolescentes que crescem  nos morros e favelas, que estão cumprindo medidas sócio-educativas,  de crianças  palestinas vivendo em acampamentos de refugiados ou, ainda, de jovens de países islâmicos sem perspectivas de futuro e inserção social. 

Anos de  humilhações e  convivência  diária com a violência, abusos, solidão, abandono e frustrações, podem criar ingredientes perfeitos para levar uma parcela significativa destes jovens a abraçar causas extremistas como a de se transformarem em soldados do tráfico ou até do terrorismo suicida, como “homens bomba” ou “crianças-bomba”,  aliás, o desejo de Wellington, Menezes de Oliveira,  manifestado em desenhos elaborados por ele e divulgados na semana passada. Equivocadamente, acreditam ser a única alternativa para terem visibilidade e adquirirem alguma importância em suas comunidades numa sociedade que a cada dia se mostra mais segregadora e intolerante com pessoas consideradas abaixo do padrão desejado.  

Por esta perspectiva, o pensamento de Wellington  como o de  Sandro do Nascimento, sobrevivente da chacina da Candelária e protagonista do seqüestro do ônibus da linha 147, na zona sul, em 2000, são semelhantes em suas motivações  com diferenças sutis. A primeira recai no histórico criminal do seqüestrador, que em diversas oportunidades demonstrou não controlar sua violência, enquanto que em Realengo, o homicida se alimentava de ressentimentos contidos desde a tenra idade que, quando vieram a tona, resultou no crime  macabro que abalou a todos.  O seqüestro do ônibus foi um evento aleatório fruto de uma mente perturbada pelo efeito continuado do uso de drogas e onde a morte de reféns era uma possibilidade. Já a invasão da escola e o assassinato das 12 estudantes foi uma ação premeditada por um indivíduo mentalmente perturbado e com requintes de perversidade quanto às vítimas escolhidas, todas do sexo feminino, e quanto aos disparos efetuados na cabeça destas, cujos ferimentos, na maioria das vezes, tornam-se fatais. 

Outra questão, que torna o caso de Realengo único no gênero criminal do país é o fato de o autor não ter antecedentes criminais e as vítimas não possuírem nenhum envolvimento com o tráfico de drogas ou com quaisquer outros delitos, tampouco eram moradores de rua, como em chacinas anteriores. 

Objetivamente, situações como estas eram vistas apenas em países como  EUA, Paquistão, Israel ou em filmes tipo “Um dia de fúria”, baseado em fatos reais, porém distante da realidade brasileira, como se pensava até então. Agora, imaginem, se Wellington fosse orientado por um grupo terrorista ou cooptado por facções do crime organizado. Com o perfil apresentado, que tragédia maior não poderia ser protagonista  se tivesse a possibilidade de possuir um cinturão de bombas amarrado na cintura? 

É neste contexto que a chacina de Realengo deve se tornar um alerta para que não mais ocorra ou não se torne um episódio freqüente. Grande parcela deste segmento da população é desassistido, carece de maior atenção de parte de governos, de programas sociais mais efetivos, cujas ações possam dar um sentido mais mensurável para suas vidas e ,desta forma, fazer a diferença oportunizando um futuro mais promissor. Situações como as que foram expostas sempre existirão em qualquer sociedade e são vivenciadas também por milhões de crianças e adolescentes brasileiros. Para nossa sorte e felicidade, muitos acabam ultrapassando estes obstáculos tornando-se pessoas respeitáveis. Mas quantos Sandros e Wellingtons existem perambulando por nossas ruas? O compromisso para que isto não mais aconteça é de todos nós. 

 

*André Luís Woloszyn é analista de Assuntos Estratégicos, Pós–graduado em Ciências Penais e Criminologia, especialista em terrorismo (EUA), diplomado pela Escola Superior de Guerra.