Cultura e solidariedade

            Todos nós estamos estarrecidos e compadecidos pelos acontecimentos apocalípticos que vem sofrendo o Japão. Um país, com uma experiência civilizatória milenar, exemplo para o mundo pelo seu comportamento ordeiro diante de tantas desgraças. É um povo que já está acostumado com os desastres naturais, que já fazem parte de seu cotidiano. Também souberam com o tempo adaptar-se a estas condições, em todos os sentidos, humanas, materiais, sociais, econômicas e políticas. Uma resignação impressionante.

            Diante de sua cultura de planejamento nos mínimos detalhes, novamente foram surpreendidos, pela natureza que manda neste tabuleiro das placas tectônicas. Jamais o homem poderá competir contra sua força e grandeza. Pode, sim, usar suas energias e canalizar para beneficio do ser humano, como as hidroelétricas, carvão fóssil, petróleo, força das marés, eólicas, calor do sol etc. Mas não a use contra ela, como a devastação descontrolada do meio ambiente, esbanjamentos, lixos etc. Aí, o troco será grande demais para suportarmos, como está ocorrendo com o clima global.

            O que mais nos surpreende, ao menos como noticiado pela mídia, foi a passividade do povo japonês, diante da sua terra destruída, sua maneira conformada, ordeira, aguardando pelo governo, que neles deposita sua total confiança. Isto é, na hora H, haverá a proteção do Estado. Só que não contavam que os acontecimentos ocorridos são de longe superiores à capacidade do Estado, ao menos a curtíssimo prazo. Isto significa que a cada seis horas o ser humano precisa alimentar-se. Aí não dá para esperar a burocracia do Estado, a sociedade sozinha deverá ter seus meios de defesa para enfrentá-lo. Neste contexto somente há um caminho: a solidariedade.

            É de se destacar um tipo de solidariedade por aqui desconhecida, onde os cânones de mercado da teoria econômica ocidental caíram por terra. Quando as pessoas procuraram os supermercados (não alcançados pela catástrofe) para se abastecerem, não houve qualquer atitude de tirar vantagem da situação, não houve um centavo (do yen) de aumento nos preços assim como nos postos de gasolina (ao menos até agora). Que estágio avançado de civilização!  

            Não temos condições de julgar aquele tipo de comportamento, mas o conformismo diante dos acontecimentos pode ser perigoso, quando se abandona o antigo espírito de criatividade e até do improviso numa hora destas, depositando todo o esforço intelectual apenas no planejamento e na previsão simulada, pois jamais se poderão entender as leis do acaso. Isto porque os acontecimentos atingiram menos de dois por cento da população. 

            Foi neste momento que um punhado de brasileiros lá residentes não podendo mais suportar aquela passividade e sentimento de fatalidade, aplicando nossa cultura tupiniquim, tomaram a iniciativa de buscar recursos, como alimentos, roupas (e lá é frio de rachar), junto à população não atingida, - embora não se negassem - ficaram surpresos por aquele ato inusitado. Predomina um preconceito na sociedade de lá de que pedir uma esmola ou ajuda é uma vergonha cultural, sinônimo de pessoas fracassadas. Enquanto o Estado usando toda a parafernália de logística, robustos computadores de última geração de como obter os recursos necessários para a população atingida, que chegaria em navios carregados de mantimento, a solidariedade local é a melhor logística. De que adianta todo este carregamento altamente estrutural de solidariedade se chegarem dentro de semanas, quando a fome bate à porta de cada um de seis e seis horas? Até lá, as estatísticas de perdas humanas já estarão bem mais recheadas.

            Mas, como dizia meu amigo e professor de sociologia, cultura é cultura. É como religião, não se discute, se crê.  

* Economista e professor de pós-graduação do ICPG/Uniasselvi, Blumenau