Voando sobre o Planalto Central

            Tanto riso, oh quanta alegria! Mais de mil palhaços no salão. Arlequim está chorando pelo amor da Colombina, no meio da multidão. (Letra e música de Zé Kéti e Pereira Matos). O Carnaval já passou e, mesmo assim, mais uma vez vou de carona num clássico dos festejos de Momo para encaixar o meu pensamento. Eu pergunto: a simples menção da palavra palhaço nos faz lembrar de quem?

            Respondo: o primeiro nome que me vem à mente é o do Tiririca, o palhaço. Atualmente, o mais bem pago do país. E o seu verdadeiro nome? Confesso não me lembrar. Mas o que importa o seu verdadeiro nome se o seu nome artístico, ou apelido, foi lembrado por mais de 1,300 milhão eleitores, quando da última eleição no Brasil? Sei que a eleição do Tiririca pegou os brasileiros de calça curta; a surpresa foi geral. Foi como um tsunâmi que, passando pelo Brasil, o deixou de cabeça para baixo. A ficha demorou a cair.

            E então surgiu a pergunta: e agora o que faremos? Surgiu uma luz no fim do túnel e de pronto se apegaram a ela. ANALFABETO não pode ser diplomado. Eu me pergunto: e os desonestos podem? Os que têm processos de corrupção? E os que fizeram mil e uma promessas durante a campanha eleitoral, passaram pelo mandato e não as cumpriram e agora, eleitos de novo, podem? A resposta todos os brasileiros já sabem. A Lei da Ficha Limpa não foi aprovada. Prometem fazê-la valer a partir do ano 2012. Será?

            Não estou aqui para defender  nem acusar ninguém. Não gosto de política, mas nem por isso fico alheio ao que acontece. Não tenho partido e não sou filiado a nenhum. Voto naquele candidato que, por suas ações, me despertar maior confiança. Já quebrei a cara várias vezes. É voz corrente do povo: “Político é muito escorregadio; ele dança conforme a música”. Assim sendo, o jeito é ficar de fora, apenas assistindo e torcendo para que ele, pelo menos, acerte o passo da dança. Não conheço o Tiririca pessoalmente; não sou seu cabo eleitoral, e não votei nele. Tacham-no de burro, de ignorante, de analfabeto e outras coisas mais. Não seria essa uma atitude invejosa, despeitada e preconceituosa? A minha proposição é mostrá-lo sob o ângulo em que o vejo: inteligente (não culto), muito vivo, esperto e honesto. Não peço que concordem com os meus argumentos. Não pretendo influenciar ninguém, muito menos polemizar. Para que “chover no molhado”? O ato de diplomação já foi consumado.

INTELIGENTE: Do nada Tiririca surgiu, com seu jeito desengonçado, roupa simples e colorida, gorro na cabeça, sorriso maroto e um bigodinho safado. Apresentou-se cantando, sem ser cantor, uma música de nome Florentina (quatro versos simples, formando uma estrofe, repetida várias vezes, com algumas frases faladas e intercaladas.) Quem não se lembra: “Florentina, Florentina, Florentina de Jesus, Não sei se tu me amas, pra que tu me seduz”? Ele fez aumentar a audiência de muitos canais de televisão e de diversas emissoras de rádio. Fez sucesso e conquistou o Brasil. Se fosse burro, não teria trabalhado no programa do Tom Cavalcante, um dos maiores humoristas do Brasil,  nem no programa A praça é nossa, do Carlos Alberto de Nóbrega.

            O Tiririca foi MUITO VIVO (e continua sendo), porque soube utilizar, e muito bem, os seus minguados dez ou quinze segundos de aparição nas telas da Televisão, durante a campanha eleitoral.

            ESPERTO, porque não esbanjou dinheiro com gastos supérfluos, para angariar votos. Com certeza ele não possuía dinheiro para gastar, e ninguém deve ter tido a coragem de o patrocinar. Creio que ninguém daria um tostão furado por ele. Seria um investimento de risco. Não ficou devendo favor a ninguém.

            HONESTO, porque não prometeu nada e afirmou que não sabia o que um deputado faz na Câmara, mas que aprenderia logo. Afinal, ninguém nasce sabendo. Só espero que ele aprenda as coisas boas e nos dê uma resposta com muita classe. O Tiririca fez o Brasil inteiro sorrir; hoje é ele que ri de todos nós.  Como todo ser humano, ele também tem o direito de sonhar. E assim ele deixou de ser o galo, ciscando no terreiro do humor, para se transformar num deputado, uma águia, voando sobre o Planalto Central.

* Artista plástico