Nossa Senhora da Cadeira?

         Estava em Viçosa, numa churrascaria de beira de estrada, no pino do meio-dia. Enquanto esperava o salário do estômago, ouvi os sinos, por várias vezes, dobrarem. Durante o solene repicar, algumas árvores isoladas balançavam violentamente porque tangidas por uma rajada de vento. Em seu vai e vem, emitiam um rangido triste e melancólico, mais parecido com um suspiro agonizante, um último pedido de socorro. Como estavam perto de uma rodovia em restauração, pensei que aquela dolente melodia vegetal fosse uma desesperada tentativa de chamar minha atenção para que as salvasse da ameaça oriunda das máquinas que retiravam barro para o aterro que se construía.

            Quando ia pedir ao operador do trator para se manter longe daquelas árvores, o celular toca. Era meu irmão Ademar informando que no entalhe inferior do assento de uma rústica cadeira feita de um tronco de eucalipto tinha descoberto a imagem de um rosto feminino e que ele e outras pessoas acreditavam ser o de Nossa Senhora. Como com a incomum notícia a fome passou, suspendi o “de comer” e disparei até seu “taco” de terra para ver a cadeira, em sua cabocla casa. Ao observar o local da “aparição”, notei apenas uma mancha na madeira que, após muito esforço, extrema boa vontade e “você não tá vendo?”, lembrava um rosto levemente inclinado e ladeado por um manto.

            Acontecimentos milagrosos ocorrem quando o Intangível interfere no curso normal da natureza. O homem primitivo atribuía origem sobrenatural às anomalias do mundo natural. Os livros sagrados das mais diversas culturas estão repletos de relatos de milagres, e determinados casos nos fazem crer que esta interferência no mundo físico continua na atualidade. Imagens de Cristo, da Virgem e de outras figuras religiosas têm aparecido milagrosamente em diferentes épocas e locais: o Lenço de Verônica, o Santo Sudário e Nossa Senhora de Guadalupe são os exemplos mais conhecidos e famosos.

            O que mais impressiona é o fato de que, se levarmos em conta o caráter rural, a simplicidade do ambiente, o estímulo da religiosidade, a consonância com a crença religiosa, a devoção à “Rainha do Céu” e a existência de fenômenos paranormais em nosso mundo, a “imagem da cadeira” obedece rigorosamente a alguns dos mandamentos básicos das teofanias e aparições.

            Senhor, mesmo que nada exista naquela rústica cadeira, abençoa os que, devido a sua fervorosa fé, nela vêm a manifestação de tua onipotência. Mas, se realmente nossa divina Mãe ali se manifesta, cura a minha cegueira física e perdoa a espiritual.

* Professor da Ufal