Pela Ficha Limpa

            Não fosse o agudo senso de dever diante do social, herdado dos meus pais, idealistas desassombrados, realistas que jamais  perderam a ternura, que souberam crescer com a adversidade e conscientemente ofereceram suas vidas à causa que acreditavam, já teria desistido e  não estaria, aqui e agora, mais uma vez, escrevendo estas mal traçadas linhas que na maioria das vezes vão parar na lixeira do setor Cartas de O Globo (não fossem os meus compreensivos contatos que, acredito, leem e encaminham os meus e.mails), o meu tempo seria perdido.

            Assim, tendo a maturidade e a compreensão diante do conformismo, do desinteresse, da “ambição pequena do nosso povo” (vide Caetano Veloso),  não somente do eleitor comum mas, também, da parcela que se diz pensante, progressista (incluir parlamentares) diante dos nossos anacrônicos, esdrúxulos, irremovíveis e aviltantes poderes Legislativo (a reboque de um modelo político-eleitoral inacabado) e Judiciário (onde, paradoxalmente, no STF,  os dois mais jovens  juízes indicados pelo governo dito  progressista são os mais conservadores), desejo louvar o trabalho hercúleo de remover a muralha que representa a resistência do sistema às reformas, principalmente, a mãe de todas elas: a reforma política.

            A Ficha Limpa representa um gesto, o engatinhar naquela  direção. É fundamental que a levemos ao eleitor e façamos este interessar-se pelo tema, sua relevância. Afinal, dela depende sua dignidade, decência e o sentimento do dever cumprido (justiça social), que o levará a olhar nos olhos do concidadão  menos favorecido (preocupação, essa,   que não consta da cartilha de nosso homem público.

            Os autores da Ficha Limpa estão acima do bem e do mal nesta e nas gerações futuras. Importa conhecê-la, discuti-la, desmistificá-la agora, até que a  igualem, na intimidade, ao futebol, à religião e ao samba. Quando isso ocorrer, estaremos, enfim, na direção da nossa consolidação democrática.