A Líbia e o Japão: qual a conclusão?

 

            Qual a conclusão? Nenhuma. Pelo menos se esperarmos "um novo olhar" sobre o mundo ou a política mundial.

            Líbia: guerra civil? Coalizões militares "em favor da liberdade"? Ditadura? O que temos aí, realmente? Nada que até mesmo os olhos de quem já passou por 20 primaveras não estranhe. O que nos surpreende - e o que estranhamente poucos atentam - é o fato de tantos países ainda estarem vivendo sob regimes ditatoriais sem nenhum pio da comunidade internacional e dos defensores do liberalismo ocidental que parecem Mauricio Del Dongo, personagem de Stendhal, que não  chegou a tomar consciência do momento histórico que testemunhava na batalha de Waterloo, ou seja,  a queda de Napoleão.

            Mas vivemos num momento histórico? Bem, todo momento é histórico. O que difere então uma Europa pós-Waterloo, em que a geopolítica não apenas do velho mundo como a do novo também toma outros rumos, do nosso momento, especificamente, do das revoltas antigovernamentais que assolam o mundo árabe? Ali, novas fronteiras foram redesenhadas, governos caíram, monarquias e repúblicas se elevaram etc, etc. Aqui, o que poderemos esperar? Um governo civil ou, como no caso egípcio, um governo de transição liderado por militares? Podemos ter certeza apenas de uma coisa: novos negócios florescerão...

            O historiador Eric Hobsbawm escreveu certa vez que o mundo pós-11 de Setembro marcaria o começo do século 21. Talvez ele tenha exagerado em tal constatação ou, o que parece ser mais provável, ele tenha tomado tal consideração depois de ter passado horas em alguma inspeção de segurança para poder embarcar em algum aeroporto. Ora, o século 21 só tem seu nome de pia apenas no calendário. Nada nos faz crer que "entramos numa nova era", se por era se entende o mundo das redes de relacionamento, das revoltas marcadas via Twitter, da internet, enfim. O simples trocar de cartas, telegramas, panfletos, opiniões jornalísticas favoreceu incontestavelmente revoltas e revoluções desde o século 19. O que há de novo e impressionante é a velocidade destas trocas de informações, não infalíveis, já que o controle dos governos ainda persiste, mas incomparavelmente mais práticas e acessíveis.

            E, quando perguntam “o que o Japão tem a ver com isso tudo?”, respondo: aparentemente nada. A tragédia japonesa não revela a insegurança com que mesmo um complexo tecnológico de Primeiro Mundo tem que lidar. Não parece, mas os seres humanos não são burros. Sabemos os riscos de acidentes desse tipo de fonte de energia. Hoje o risco nuclear,  enfim, não é planetário, é apenas local, como, em termos políticos – e, aqui para nós, falando baixinho, econômicos  -- , a revolta líbia.

            O incêndio nos reatores da usina nuclear Fukushima é um problema tão próprio do século 21 quanto o acidente nuclear de Chernobyl foi a imagem e semelhança do século 20.  Ou seja, não há nada de novo que nos ponha a debater as políticas energéticas a partir de agora, pois tudo o que diz respeito sobre tais questões já é de domínio de governos e cientistas há algumas décadas. Explosões, radiação, contaminação de alimentos e pessoas etc são consequências de acidentes nucleares sabidas por qualquer autoridade. Se quisermos ter um novo olhar para este problema que certamente, enquanto insistirmos nessas fontes, continuará a incomodar governos e a assombrar a sociedade, será melhor fechar de vez as suas portas. Aí, sim, poderíamos dizer que estaríamos em face de diretrizes que atendem às necessidades do século 21.: as da tão famigerada sociedade sustentável e limpa.

            Cada vez que o ser humano se aventurou em novas descobertas, ele teve consciência de suas conseqüências. Pensar o contrário é, no mínimo, um ato de indulgência ingênua e hipócrita. Já nos acostumamos a olhar para trás e ter medo do que fomos capazes de fazer, de criar, de inventar num ritmo tal que nem entendemos mais a que demanda atender. Se o problema por um lado é como sobrevivermos à nossa própria criação, já que não temos controle de tecnologias que assegurem humanamente nosso futuro, e, por outro, por que continuamos a ignorar problemas que, nós, ocidentais, temos como existentes apenas num passado distante, como o do ato simples da liberdade, não sei, mas parece que, para tais questões, estamos diante da História, como Galileu diante da exigência do papa: afirmando nossos erros para todos ouvirem, mas confirmando nossos feitos apenas para nossa própria consciência.

* Historiador