Perdão e a Lei de Gérson

        Antes do artigo em si, talvez convenha explicar ao leitor mais jovem quem foi Gérson e o porquê da expressão "Lei de Gérson" para definir quem tenta levar vantagem em tudo e de qualquer maneira. Com ajuda da Wikipédia é possível saber que Gérson é carioca de Niterói, nasceu em 1941, e foi jogador de futebol (meio-campista) capaz de fazer lançamentos precisos de mais de 40 metros. 

Destacou-se em equipes como Botafogo, Flamengo e Fluminense (do Rio) e no São Paulo FC. Na Seleção Brasileira de 70 (tricampeã, no México), o jogador protagonizou lindos lançamentos, alguns aproveitados pelo Rei Pelé, que dominava a bola no peito, a fazia descer na grama e em seguida a mandava para o fundo do gol adversário.      

       Conhecido por Canhotinha de Ouro, Gérson continuou famoso nos anos 70, mas ao  protagonizar campanha publicitária de cigarros (o que, convenhamos, não foi politicamente correto para um atleta), na qual a mensagem era "Gosto de levar vantagem em tudo", acabou resumindo suposta malandragem brasileira. E o que seria só bordão de propaganda virou cultura popular e, mesmo em época de pouquíssima liberdade de expressão, o jargão virou espécie de símbolo do jeitinho desonesto de ser e de corrupção, originando o que se chama de Lei de Gérson. Vale frisar que o atleta lamentou publicamente, pois os supostos defeitos do povo brasileiro não combinariam com o jeito de ser dele.

        Dadas as explicações sobre Gérson e a lei que leva injustamente o nome do ex-jogador, vamos à parte do perdão, ou seria do pecado? Acredito que os dois. Eu já tinha ouvido a piada, mas recentemente a li, e não teve como não associar com o lado pejorativo do levar vantagem em tudo. Após décadas sem ir a uma igreja, o cara vai ao confessionário e diz ao padre que manteve um fugitivo de guerra escondido no porão de sua casa. O padre fala ao "bom samaritano" que aquilo não era pecado, era sim gesto humanitário, pois ele salvou uma vida. 

      Entre aliviado e sem jeito, o cara diz que não fez de graça, pois cobrou aluguel do refugiado. O padre muda o semblante e diz que assim a situação era diferente e que ele devia fazer penitência para ser perdoado. O cara parece achar justo, mas antes de sair do confessionário pergunta ao padre: "O pecado fica mais grave se eu confessar ao senhor que não contei pra ele que a guerra acabou faz mais de 60 anos e continuo cobrando aluguel?".

        Cada um pode até pensar o que o padre deve ter dito pro cara... 

 

* Jornalista