Vítima do próprio sucesso

Regimes democráticos podem assumir formas institucionais diversas, mas supõem sempre pelo menos duas coisas: fundam-se na ideia de que cidadãos iguais estão em condições de tratar eles mesmos dos seus próprios assuntos; desconfiam da acumulação de poder nas suas mãos, donde a ideia de opô-lo a si,  conforme a forte intuição de Montesquieu.

Daí os regimes democráticos estabelecerem instituições que neutralizam o poder sem paralisá-lo,de modo que o cidadão possa fazer apelo de um para o outro em caso de abuso. Os regimes democráticos procuram regular pacificamente os conflitos que os atravessam; propõem que indivíduos e grupos se dobrem à negociação e procurem através do diálogo ou do debate soluções aceitáveis por todos ou pelo maior número.

Dificilmente se calcula até que ponto esse ideal, muitas vezes contrariado pelos fatos ou traído sob pressão dos poderosos, constitui uma vitória contra a violência das relaçõe sociais. Mas a existência de uma opinião pública, perante a qual podemos exprimir-nos, permite retorquir ao adversário, bem como expor ideias e teses as mais opostas.

Promoção do indivíduo contra a sujeição ao grupo, sentido dos seus direitos contra as arbitrariedades dos poderosos, institucionalização dos conflitos em nome de uma espécie de não violência implícita, procura comum de decisões mediante o debate livre e compartilhado, tudo isso remete para uma lógica que modela a moderna sociedade democrática, marcada pela ciência e suas aplicações.

Pode-se puxar o fio desta lógica por muitas pontas; porém, percebe-se hoje a proeminência da ciência. O cientismo arrasta consigo todo  tipo de crenças insensatas sobre o futuro do homem (as teorias deterministas a partir das ciências do cérebro, recorrentemente veiculadas pela mídia em geral, fazem sucesso). Daí a crença de que os princípios de organização social, o sentido da vida coletiva se comportam como se fossem títulos de propriedade, uma espécie de realidade que, uma vez aparecida na história, estaria certa de gozar de estatuto garantido.

 Receio que estejamos hoje perante uma ilusão. Um indivíduo pode perfeitamente assumir esta lógica sem que nisso intervenha sua capacidade de reflexão, nem sua experiência do mundo. De que a ciência é exatamente capaz? De que realidade(s) fala ela?

Apenas o olhar atento nos conecta com o mundo, e essa conexão é a melhor vacina contra slogans e linguagens, aparentemente técnicos, mas na realidade vãos. À falta de conexão com o mundo, as palavras já não dizem das coisas, as frases já não respondem a nada e a ninguém. Pois já não somos capazes de nos sentir interpelados, nem tampouco de nos apercebermos das exigências de uma situação.

Quando o comitê de bioética de um hospital delibera sobre uma determinada situação, quando um grupo de pesquisadores de uma universidade expõe o seguimento de uma nova linha de pesquisa, é evidente a conveniência de chegar a acordos. Mas também é conveniente que o processo de diálogo sirva, antes de tudo, para que os interlocutores vejam melhor onde se está e aonde se quer chegar.

Nenhuma sociedade está ao abrigo de inflexões graves em relação aos seus próprios princípios, mesmo que estes tenham sido democraticamente estabelecidos. Nenhuma sociedade tem de tal modo seguros os seus princípios que não tenha constantemente de reformulá-los ou, simplesmente, de dar-lhes novo alento. Mesmo consciente de si, nossa sociedade pode ser vítima do próprio sucesso. Como isso é possível?

Aparentemente, hoje, um conformismo preguiçoso leva progressivamente a  desconsiderar todo não alinhamento pela opinião majoritária ou, pelo menos, a aceitá-lo com dificuldade.

* Engenheiro