Nem ópio, nem trincheiras

 

* Aloísio Vilela de Vasconcelos é professor da Universidade Federal de Alagoas

Mesmo carregando as mazelas que fazem questão de não me deixar em paz desde meados de dezembro, sacudi o mal-estar para um lado, rezei o credo, tomei a massaranduba do tempo e fiz uma viagem. Uma viagem, não para uma das artérias ou veias que irrigam o coração do imperialismo mas para a terra do Patriarca do Nordeste, o Protetor dos Pobres: fui ao Juazeiro do Meu Padinho Ciço.

Para fazer esta viagem não sentei na poltrona da luxuosa primeira classe de um superavião. Não, não fiz isso. Fui de automóvel rasgando as ermas vastidões do nosso sofrido chão, parando aqui e acolá, numa ébria tentativa de encontrar a Shangri-Lá nordestina e assim poder metrificar a distância entre o fim dos pesadelos e o início dos sonhos. Ilusão, pura ilusão, porque, quanto mais me aproximava de meu objetivo, mais minha esperança se tornava inútil e fugidia, pois nada via além da ilimitada extensão dos mais profundos contrastes sociais.

Pregam os partidários de determinadas teorias que, quando o homem perde a fé no próprio homem como agente minimizador da dor e do sofrimento de seu semelhante, há uma inequívoca tendência a se acreditar no transcendente e, como consequência, um aumento exponencial na crença em algo intangível. Assim, através da contundente negação da manifestação de forças superiores inatingíveis, se explica o que ocorre em diversos locais do mundo.

Sinceramente, não sei quem mais enfermo e acamado culturalmente: se a teoria que isto propõe ou quem a ela está apegado e se contenta com suas irrisórias veleidades. Sei, sim, que quem quer que vá à Meca do Nordeste – cidade para onde vão milhares e milhares de romeiros que se sentem completamente abandonados, como o Galileu ao ser crucificado, curam as chagas do desespero através das chagas da fé – em época de romaria, ao ver a multidão de coração cristão banhada em lágrimas que uníssona canta, por mais resistente que seja sua blindagem, acredito que se sentirá possuído pelo forte pensamento medieval, invasivo, nazificante: um só Deus, uma só fé, um só povo.

Por Deus, ali há algo estranho no ar, e não é ópio. Algo que barra e tange o desespero. Que conforta e alivia. Que robustece o espírito. É o Transcendente. Ali pulsa o Transcendente. Pulsa com tanta intensidade que chegamos a senti-lo, a quase apalpá-lo. Mas, um momento: não é “nas trincheiras que o homem encontra Deus”?

Interessante, lá não vi “trincheiras”, vi milhares e milhares de altares, pois o que somos senão o mais sublime altar que Deus utiliza para se manifestar?