A virtude da solidariedade

A importante encíclica Sollicitudo rei socialis (A solicitude social da Igreja) veio a público no dia 19 de fevereiro de 1988. O objetivo do documento foi celebrar o 20º aniversário da encíclica Populorum progressio, do papa Paulo VI. A maior preocupação de Paulo VI, com sua encíclica, foi promover o desenvolvimento e reduzir o hiato entre povos desenvolvidos e subdesenvolvidos.

Entretanto, a situação, hoje, é pior que dezenas de anos atrás. A distância aumentou e apareceu o chamado “Quarto Mundo”, não obstante alguns avanços registrados na Sollicitudo rei socialis. Hoje, há sinais de que o homem começa a perceber a necessidade de uma atenção mais séria ao agravamento da situação social dos povos. A Sollicitudo rei socialis chegara na hora certa, no momento oportuno.Acresce que tal diferença social não está estacionária, mas denota uma “velocidade de aceleração”. Essa anomalia se revela não só no campo econômico-social como no cultural e atinge outras formas de exploração e de opressão.

A triste realidade é, “pelo menos em parte, o resultado de uma concepção demasiado limitada, ou seja, predominantemente econômica do desenvolvimento” (nº 15). A interdependência vigente no mundo, fragmentado em vários patamares de progresso, sem fundamento ético, acarreta consequências funestas aos países pobres e mais fracos. O relacionamento internacional não pode ficar à mercê de “mecanismos que não se podem deixar de qualificar como perversos” (nº 17). Deles resultam a crise de habitação, o desemprego, o subemprego, a dívida internacional.

Entram como ingredientes nessa difícil situação os princípios do capitalismo liberal e do coletivismo marxista. Perante ambos, “a doutrina social da Igreja adota uma atitude crítica” (nº 21).

Neste quadro, o documento enfoca aspectos positivos nos nossos dias, como a maior preocupação com os direitos humanos, com a preservação da paz que “exige, cada vez mais, o respeito rigoroso da justiça” (nº 26) e com a ecologia. A lição que se aprende diante desses problemas que nos afligem é que “a mera acumulação de bens e serviços, mesmo em benefício da maioria, não basta para realizar a felicidade humana (...), o mal não consiste no “ter” enquanto tal mas no fato de se possuir, sem respeitar a qualidade e a ordenada hierarquia dos bens que se possui” (nº 28).

Há um fundamento ético, sem o qual ricos e pobres não conseguem um desenvolvimento autêntico, humano. Este, porém, só é válido, verdadeiro se inclui uma dimensão transcendental: “Deve fundar-se no amor de Deus e do próximo” (nº 33). Assim, todo o capítulo V é "uma leitura teológica dos problemas modernos”.

A encíclica Sollicitudo rei socialis propõe indicações práticas, muito úteis ao momento que vivemos no Brasil. E o capítulo VI: “Algumas orientações particulares”.

Lendo essa encíclica, causa viva impressão a insistência sobre a supremacia dos valores religiosos, na solução das injustiças sociais. João Paulo II tratava da matéria como pastor. Ele dizia: “O obstáculo principal a superar para uma verdadeira libertação é o pecado, corroborado pelas estruturas que ele suscita, à medida que se multiplica e se expande” (nº 46).

Uma mesma palavra percorre todo o documento, explícita ou implicitamente: solidariedade. O papa proclama ser elaborada,  ”indubitavelmente, uma virtude cristã” (nº 40). E entre as admiráveis testemunhas recorda São Pedro Claver, que se pôs ao serviço dos escravos, em Cartagena, Colômbia.

Finalmente, concluiu: “Neste Ano Mariano (...) desejo confiar-lhe, a ela e à sua intercessão, a difícil conjuntura do mundo contemporâneo, os esforços que se fazem e se farão, muitas vezes à custa de grandes sofrimentos, desejando contribuir para o verdadeiro desenvolvimento dos povos” (nº 49).

* Arcebispo emérito do Rio de Janeiro