Ecos do encontro

 

         Foi no início da semana que Dilma Rousseff e Cristina Kirchner se reuniram por algumas horas na Casa Rosada. Estiveram fechando vários acordos bilaterais nas áreas de habitação, biocombustiveis, energia nuclear, entre outros. Enquanto assinava os documentos, Cristina Kirchner deu uma discreta mirada na roupa de Dilma Rousseff e perguntou:

         - Não quer assinar também um acordo na área de moda primavera-verão?

         Dilma sentiu-se envaidecida com a proposta da coleguinha.

         - Por que a sugestão? Gostou da minha roupa?

         Na verdade, Cristina achou o modelito de um mau gosto tailandês – e, mais tarde, comentou com um assessor: “Dilma parecia uma tigresa rechonchuda!”. Mas como a Argentina anda muito dependente do Brasil preferiu seguir pela cartilha da diplomacia.

         - É lindo, Dilma! Uma beleza! E fica muito bem em você! Comprou em uma liquidação?

         - Mandei fazer! Se quiser dou o endereço do meu costureiro. Ele facilita o pagamento.

         Cristina se mexeu na cadeira e saiu pela tangente:

         - Não, obrigado! Se a oposição descobrir que troquei meu costureiro argentino por um brasileiro vai me chamar de entreguista! Não aguento mais esses opositores! Voce é que é feliz, Dilma. Não tem oposição no Brasil!

         - Antes tivesse! Voce não sabe o que é ter que aturar parlamentares e sindicalistas da base aliada!

         - Pior mesmo é o machismo desses caras.

         - Nem me fala!

         - Eles olham pra gente como se fôssemos umas estranhas no ninho. Vai se preparando, Dilma! Na sua primeira mancada vão logo dizer: “Viu no que deu botar uma mulher na Presidência?”

         - Comigo não, minha filha. Sou mais “homem” do que muitos deles. Em menos de um mês já demiti dois!

         - Você tem namorado?

         Dilma olhou à volta a ver se havia algum assessor por perto.

         - Nem sei mais o que é isso! – baixou a voz. – Você tem?

         - Não, mas estou louca para arranjar um. Depois que o Nestor morreu, tenho me sentido tão sozinha...

         - Não será a solidão do poder?

         - É solidão de não poder... ter alguém. Sinto muita falta de um abraço, um carinho, um beijo na boca...

         - Com o tempo você se acostuma. Eu quando me separei...

         - Você separada, e eu viúva. Reparou que nós duas, as mulheres mais poderosas da América do Sul, dormimos sozinhas na cama de casal? – Cristina fez uma expressão sonhadora. – Tem até um ministro com quem simpatizo muito, mas não dá para pensar em namorar agora com a Argentina desse jeito, cheia de problemas. Você já está sendo paquerada?

         - Nossa! Desde os tempos da Casa Civil...

         - Pois fique certa de que na Presidência essa paquera vai triplicar. Comigo, foi só enterrar o Nestor, que tudo quanto é homem do governo passou a me olhar de um modo diferente.

         - Você é uma mulher muito bonita, Cris! Tem uma pele ótima!

         - Eles não estão interessados nisso. O que os fascina é o meu cargo. É a vaidade pessoal de poder anunciar aos amigos: “Hoje à noite vou sair com a presidente da República!”.

         - Somos obrigadas a nos comportar como castas donzelas. Já os homens quando na Presidência podem transar todas, e ainda são aplaudidos...

         - Estou me lembrando de um presidente do Brasil que apareceu em um desfile de Carnaval com uma mulher sem calcinha. O que aconteceu com ele?

         - Nada. Ganhou fama de garanhão.

         - Agora imagina se nos pegam sem calcinha!

 

* Escritor