Apresentação do Senhor e vida consagrada

Através dos conselhos evangélicos, homens e mulheres querem imitar Cristo mais de perto

 

A Apresentação de Jesus no Templo, festa litúrgica que a Igreja celebra no dia 2 de fevereiro, serve de inspiração para a Jornada Mundial da Vida Consagrada, que é vivida nesta mesma data por indicação do papa João Paulo II, de tão saudosa memória.

A festa da Apresentação de Jesus no Templo remonta ao século 4, em Jerusalém. No curso do tempo, a festa celebrou a experiência de Maria, que, em obediência à lei, foi ao Templo, passados quarenta dias do nascimento de Jesus, para apresentá-lo ao Pai e para cumprir o rito da própria purificação. Apesar da tradição, esta festa só assumiria um significado eminentemente cristológico com a reforma litúrgica de 1966.

O estado de vida religiosa na Igreja é percebido como um grande dom! Nesse estado, através dos conselhos evangélicos (pobreza, castidade e obediência), homens e mulheres querem imitar mais de perto o Cristo, pobre, casto e obediente. A Vida Consagrada na Igreja é manifestada através dos institutos religiosos (fuga mundi, votos públicos, vida em comunidade), dos institutos seculares (agentes no mundo, votos ou outros vínculos, sem obrigatoriedade de vida em comum). A Vida Consagrada se assemelha às sociedades de vida apostólica (sem votos nem vida em comunidade). 

A Jornada Mundial da Vida Consagrada, a 2 de fevereiro, estabeleceu-se a partir de 1997, após a exortação apostólica pós-sinodal Vita consecrata, assinada por João Paulo II a 25 de março de 1996. O documento reflete sobre a vida consagrada e sua missão na Igreja e no mundo. “Ao longo dos séculos nunca faltaram homens e mulheres que, dóceis ao chamado do Pai e à moção do Espírito, elegeram este caminho de especial seguimento de Cristo, para dedicar-se a ele com coração ‘indiviso’ (1Cor 7, 34)”, recorda João Paulo II na introdução de Vita consecrata. E depois define-a como “Dom de Deus Pai à sua Igreja, por meio do Espírito”.

Neste ano celebraremos a XV Jornada, e o santo padre costuma presidir com os membros dos institutos a celebração desta festa na Basílica de São Pedro, com a novidade de que em breve teremos um brasileiro – pela primeira na história da Igreja – o arcebispo emérito de Brasília, dom João Braz de Aviz, como prefeito do dicastério que trata dos assuntos relativos a esse bem tão precioso que é a Vida Religiosa na Igreja. No âmbito de nossa arquidiocese está instituído um Vicariato para a Vida Religiosa e para as Novas Comunidades, sob a responsabilidade de dom Roberto Lopes, OSB, cuja missão é dinamizar a ação pastoral e evangelizadora dos religiosos de nossa arquidiocese.

 A vida religiosa é um dom precioso para a vida da Igreja e para a sua ação pastoral. Seguir Nosso Senhor Jesus Cristo de modo incondicional, como nos é proposto pelo Evangelho, tem constituído ao longo dos séculos a norma derradeira e suprema da vida religiosa (cf. Perfectae caritatis, 2). Na sua Regra, São Bento remete para a Escritura como “norma retíssima para a vida do homem” (n. 73, 2-5). São Domingos “em toda a parte manifestava-se como um homem evangélico, tanto nas palavras como nas obras” (Libellus, 104: in P. Lippini, San Domenico visto dai suoi contemporanei, Ed. Studio Dom., Bolonha, 1982, pág. 110), e assim ele desejava que fossem inclusivamente os seus padres pregadores, ou seja, “homens evangélicos” (Primeiras constituições ou Consuetudines, 31). Santa Clara de Assis corrobora plenamente a experiência de São Francisco: “A forma de vida da ordem das irmãs pobres”, escreve ela, “é a seguinte: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (Regra, I, 1-2: FF 2750). São Vicente Pallotti afirma: “A regra fundamental da nossa mínima congregação é a vida de nosso Senhor Jesus Cristo, para o imitar com toda a perfeição possível” (cf. Obras completas, II, 541-546; VIII, 63, 67, 253, 254 e 466). E São Luís escreve: “A nossa primeira regra e vida consiste em observar, com grande humildade e com amor dulcíssimo e ardente a Deus, o santo Evangelho” (Lettere di Don Orione, Roma, 1969, vol. II, pág. 278). 

Assim, animados pela consagração integral da vida a Deus e à Igreja, conclamo os fiéis a rezarem para que surjam sempre animadas e santas vocações religiosas para o seguimento de Jesus Cristo, nosso Redentor!

 

* Dom Orani João Tempesta, O. Cist é arcebispo do rio de janeiro