Os salários da corrupção

Insatisfeitos com a opinião geral a seu respeito, resolveram vingar-se: elevaram salários em 62%

Quase dois terços dos brasileiros (64%) acreditam que a corrupção no país aumentou nos últimos três anos. É o que revela uma pesquisa divulgada pela Transparência Internacional. Sem querer duvidar da enquete, desconfio que a corrupção no Brasil venha crescendo desde as Capitanias Hereditárias (grande armação!). E, se a percepção de tal crescimento não bateu em 100%,  terá sido por falta de informação de parte dos entrevistados ou porque os 36% restantes são exatamente os que vestem a camisa da corrupção (por baixo do terno, é claro).

A pesquisa mostrou ainda que, na opinião dos brasileiros, os maiores antros de corruptos estão no Poder Legislativo e nos partidos políticos. Em uma escala de 1 a 5, onde 1 é a honestidade absoluta e 5 a corrupção total, as casas legislativas alcançaram a extraordinária marca de 4,1 pontos, empatadas na liderança com os partidos, tendo em segundo lugar a policia, com 3,8 pontos.

Naturalmente insatisfeitos com a opinião geral a seu respeito, senadores e deputados federais resolveram vingar-se e elevaram seus salários em 62% (vão ganhar R$ 26.723,13, fora mordomias). Um leitor desavisado perguntará por que este aumento representa uma vingança. Simples: porque o dinheiro sai do nosso bolso. Significa dizer que vamos melhorar a vida dos parlamentares e piorar a dos contribuintes que mais à frente vão dar de cara com um novo imposto ou com a elevação dos muitos já existentes!

Não consigo me acostumar com esta prática (deletéria) de os parlamentares aumentarem seus salários sem dar satisfações a ninguém. Nem me refiro à escandalosa distância que separa o salário mínimo dos subsídios desses senhores. Mas, se eles são representantes do povo, deveriam dar uma satisfação a esse povo ou ao menos àqueles que os entronizaram no Congresso. Na verdade, o salário dos parlamentares só deveria ser reajustado quando houvesse reajuste no salário de seus eleitores.

Algumas correntes mais radicais afirmam que esses senhores deveriam receber apenas uma ajuda de custo (como acontece em alguns países). É de se supor que eles se candidatem movidos pelo ideal patriótico de contribuir para o desenvolvimento do país. Afinal, a atividade política não é uma profissão, não exige concurso nem vestibular nem conhecimentos da matéria. Os legisladores não podem chegar lá e anunciar: “Agora nós vamos ganhar 26 mil reais, e pronto! Quem não estiver satisfeito que vá morar na Bolívia!”.

Num país de tantas pesquisas, por que não se faz uma perguntando ao povo brasileiro o que ele pensa dessa prática (deletéria) do Congresso? Algo precisa ser feito para mudar as regras dessa farra salarial. Talvez venha de tal arbitrariedade do Legislativo a sensação de corrupção denunciada na pesquisa da Transparência Internacional. Um salário de 26 mil reais (fora mordomias) é uma afronta ao povo deste país! Quem sabe, porém, os parlamentares não estão aumentando seus subsídios exatamente para reduzir a corrupção legislativa! Como disse meu amigo Evilásio: “Com o salário atual de 16.700 reais fica difícil resistir à corrupção”.