Um programa de vida

Após publicação de artigo meu no ‘JB’, a Light foi impecável. Logo o poste passou a iluminar a rua

Desde que me mudei do Leblon para a Gávea, lá se vão 17 anos bem contados, troquei as corridas matinais pelo calçadão pela descoberta do Jardim Botânico, sem sombra de dúvida ou comparação, o espaço mais bonito desta ex-capital tão maltratada por governos calamitosos.

 A Gávea e o Jardim Botânico se completam como nos casamentos felizes. Desde a minha rua modesta, que não é uma paisagem de festa, mas uma bênção não sei de quem. A Rua General Rabelo, que poucos sabem onde fica, inclusive a maioria dos motoristas de táxi, começa na Avenida Rodrigo Otávio e termina na Rua Marquês de São Vicente, quase em frente do Shopping da Gávea.

 Um dos segredos da minha rua é que, estreita e de mão única, não estimula os motoristas a pisarem no acelerador. Não há registro de desastre, choque de carros, cenas de violência, brigas de desocupados. Uma rua deliciosa na sua modéstia em que os moradores se cumprimentam e se ajudam nas raras emergências. 

Em meados deste ano que se despede, o caso de um poste foi parar nos jornais. Um velho poste enferrujado, que ameaçava cair, despertou a vigilância de moradores que reclamaram da Light. Depois de semanas de pedidos de socorro, a chama de esperança do aviso para não estacionar carros no próximo sábado, pois a rua seria interditada por horas para a troca do poste.

 Ninguém desobedeceu ao apelo. E a Light não apareceu nem se explicou. Duas semanas depois, o bis do desrespeito. Escrevi um pequeno artigo, publicado neste Jornal do Brasil, antes do jornal digital. E foi um tiro na mosca. Na semana seguinte a Light foi impecável. Antes de o dia escurecer, o serviço estava pronto, e o poste iluminava a rua.

 Mas o Jardim Botânico é o mais belo espaço do Rio. Sem comparação. Nele caminho com meus filhos e noras, ou solitário nos meus 87 anos. Dá para ir caminhando, com passo apressado, em menos de meia hora. E, a não ser que a ameaça de chuva disperse os mais prudentes, as horas passam nos domingos e feriados. Um dos poucos, senão o único espaço público, em que o deslumbramento das paisagens é completado pela segurança. 

Os fotógrafos adoram levar as misses e noivas, as famílias nas festas para o Jardim Botânico: lá as máquinas e sua milionária traquitana estão em segurança. 

 Paro aqui. A manhã está linda, e o Jardim Botânico à minha espera.