O vencedor das últimas eleições deve dar sentido prático à expansão da economia brasileira

O Brasil pós-Lula estará inserido numa atmosfera de incerteza quanto à economia global. Tal cenário pode implicar significativa estiagem internacional de capitais. A recuperação dos EUA e da Europa é lenta e incerta. A dependência mundial no crescimento dos BRICs, com ênfase na China, por demais arriscada. É com este ambiente externo que o vencedor das eleições de outubro deve dar sentido prático à continuada expansão da economia brasileira e o resgate da dívida social. 

Nesse contexto, a opção pelo mercado interno por parte do Brasil tem sido cantada em prosa e verso como a grande responsável pela maneira quase incólume com que o país passou pela Grande Recessão deflagrada em setembro de 2008. 

Isso leva alguns a concluírem que é um erro a internacionalização da economia brasileira.  Que não importa a pequena ênfase que o Brasil confere à conquista de mercados externos. Ora, nada mais errado. A China também atravessou a crise de cabeça erguida – e ostenta 60% de seu PIB relacionado ao comércio exterior. 

Muitos acreditam que a baixa participação do Brasil no comércio mundial (menos de 1% de tudo que se compra e vende no mundo) e do comércio exterior no Brasil (apenas cerca de 17% do PIB) é fruto do protecionismo dos países mais ricos. 

Tal injustiça só poderia ser corrigida mediante negociações do tipo “governo a governo” em tabuleiros como as tratativas União Europeia–Mercosul ou a Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Sem dúvida, as negociações “governo a governo” são muito importantes. Produtos em que o país apresenta claras vantagens competitivas, como açúcar, calçados, cítricos, siderúrgicos, o agronegócio em geral e tantos outros, dependem de regras mais justas no comércio internacional. 

No entanto, há questões prévias, ainda mais importantes que o resultado dessas negociações: 

Será que o Brasil quer fazer do comércio exterior sua principal via de inserção na economia global? 

Desejamos que o comércio exterior se torne nossa ferramenta privilegiada para a construção de poupança nacional e portanto de recursos para investir? 

Ora, se as respostas forem positivas, a assimetria do comércio internacional não deve representar uma “desculpa paralisante” para nosso esforço de comércio exterior.

Não se pode dizer que acordos multilaterais tenham sido responsáveis pela decolagem rumo ao desenvolvimento de qualquer país nos últimos 30 anos. Coreia do Sul, China e Chile acresceram suas rendas nacionais de maneira dramática sem qualquer ênfase a negociações pluri ou multilaterais como principal elemento de sua estratégia comercial.  

Centrar a estratégia de inserção comercial de nosso país apenas na busca de um “final feliz” para as negociações multilaterais nos faz perder o foco. Para abusar das metáforas futebolísticas tão em moda, é como se um país desejasse tornar-se potência do futebol mundial colocando o cerne de sua estratégia em bons advogados em Zurique, sede da Fifa. O importante mesmo é saber jogar bola.

Temos portanto que substituir noções simplistas, como a ideia de que “o mercado mundial pode ser interessante para o Brasil se barreiras protecionistas forem eliminadas”, por questões como “qual nossa estratégia de promoção comercial mesmo num mundo protecionista?”.

As lições da história econômica das últimas décadas ensinam claramente que aqueles países que buscaram a internacionalização tiveram mais êxito do que os atrelados dogmaticamente a seu mercado interno. Cabe ao Brasil aprender essa lição. 

Ao lado das negociações, é claro que  urgem as reformas trabalhista, previdenciária e tributária. Além disso, porém, há um quarteto de prioridades:

1) a facilitação da legislação interna para abertura de empresas de vocação exportadora;

2) ênfase nos aspectos logísticos de projetos a serem contemplados pelas PPPs;

3) formação de recursos humanos especializados, no âmbito do setor privado, para a promoção comercial no exterior e a atração de IEDs (investimentos estrangeiros diretos); e

4) fortalecimento da presença das micro e pequenas empresas mediante consórcios exportadores. 

Eis os primeiros – e elementares – passos rumo a uma nova competitividade externa. 

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