Se não puder melhorar, que não se piore a vida infantil

Foi tema de  vários debates ao longo do dia de ontem o lançamento de um novo brinquedo: uma miniatura do caveirão, veículo blindado que costuma ser usado pela polícia para entrar em comunidades durante conflitos armados. O pequeno caminhão vem acompanhado por dois bonecos representando policiais vestidos de preto e com metralhadoras de plástico.

O mínimo que o artefato de brinquedo provoca é uma sensação negativa. Já há tantos estímulos naturais para que nossas crianças sejam agressivas que mais um só que seja é totalmente dispensável. A ideia, pelo menos, deveria ter passado pelo crivo de alguma comissão de especialistas em psicologia infantil e educadores.

É fato que não é um brinquedo que vai consertar ou deteriorar a conduta de uma criança. É uma educação familiar estruturada, com valores e exemplos, que formará o futuro cidadão. E provavelmente quem tem isso em casa não vai sequer ter interesse em brincar de algo com tamanha carga de agressividade. O problema mais grave é a banalização da violência e a sua inclusão no ambiente lúdico.

E se uma fábrica, no afã de faturar, resolvesse criar bonecos, a serem vendidos nas comunidades carentes, com a fisionomia ou o nome de traficantes – o boneco Escadinha, ou o boneco Beira-Mar, por exemplo? E se jogos de montar tivessem peças circulares, como pneus, que simulassem os conhecidos e abomináveis microondas, onde os bandidos executam seus rivais? Pode parecer exagero, mas quem cria um caveirão de brinquedo pode muito bem avançar para os exagerados exemplos acima.

É por essas e por outras (como os videogames que simulam assassinatos em ambientes urbanos e outros tipos de guerrilha) que a sociedade tem de se defrontar quase rotineiramente com alunos mortos a tiros em sala de aula, além de um clima de total falta de respeito com professores, funcionários e pessoas idosas. O limite passou a ser um item inexistente na educação infantil. E agora falta não só em casa mas também nas fábricas de brinquedos. Que, se não podem educar melhor, pelo menos não deviam piorar a vida das nossas crianças.