O voto católico

As eleições neste domingo e sua importância vão além do exercício de um dever cívico. Além da escolha do chefe do Executivo, faremos chegar ao Senado, à Câmara Federal, ao governo dos estados e às assembleias legislativas os que irão elaborar as leis. Esse pleito deve ser avaliado segundo os critérios do Evangelho.

No que toca à sua missão, não compete à Igreja, essencialmente, sugerir uma opção partidária determinada. Mas, sim, conclamar todos os seus leigos, cuja vocação é exatamente a de santificar a realidade temporal, para que cada um assuma suas responsabilidades com empenho e coerência. Tenha-se em mente que o cabal respeito ao julgamento das urnas jamais poderá ser empanado por eventuais falhas na escolha de homens para determinados cargos. Qualquer restrição neste terreno trará prejuízos de monta.

Após uma séria reflexão, iluminados pelo Evangelho e pela doutrina social que dele decorre, os que votam analisam os projetos anunciados e seguem sua consciência na escolha daquele que mais lhe parece corresponder às propostas que servem ao bem comum.

O voto consciente é um dever. No momento histórico que vivemos em nossa pátria não podemos nos omitir. O primeiro passo é examinar os programas dos candidatos, compará-los com os ensinamentos da Igreja, discernir a capacidade efetiva de cada um na concretização daqueles planos de desenvolvimento integral, no respeito pela verdade e na justiça. Não se pode aderir a planos eleitorais de candidatos que firam a dignidade do homem nem tampouco aceitar visões e ideologias contrárias ao Evangelho. Postas em prática, levariam à negação das lições do Mestre. Aos direitos dos homens, justos e necessários, acrescentam-se como prioritários os direitos de Deus, que uma nação não pode, impunemente, desconhecer ou, o que seria pior, negar conscientemente.

O verdadeiro compromisso político inclui a preservação da vida, em todas as suas formas e etapas, desde a concepção no seio materno até à proteção e apoio na velhice: o aborto, por exemplo, deve ser claramente condenado como oposto à lei divina e à fundamental dignidade da própria criatura racional. Um candidato que se opõe ao Evangelho não merece o voto.

Um outro aspecto importante é a adesão partidária que, no sentido cristão, assegura a justiça social na paz e na convivência pacífica: a defesa da propriedade traz em si a afirmação da dimensão social que ela comporta. Condena-se assim tanto o egoísmo individualista do lucro sem medidas como a utopia materialista de uma sociedade sem classes.

Toda proposta válida garante uma educação integral, que, ao formar a criança e o jovem, respeite a sua dimensão espiritual e religiosa, necessária para que a cultura contribua eficazmente para o autêntico desenvolvimento.

Somente assim veremos a concretização da democracia, em espírito de corresponsabilidade e de participação de todos os cidadãos, na harmonia da convivência social, em que os inevitáveis conflitos são resolvidos no diálogo e no exato cumprimento da lei por parte de todos.

Outro ângulo a ser tomado em consideração é a dignificação da vida pública. Trata-se de algo nobilitante, conforme nos ensina o Concílio: “Todos os cidadãos se lembrem, portanto, do direito e simultaneamente do dever que têm de fazer uso do seu voto em vista da promoção do bem comum. A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, em serviço aos homens” (Gaudium et spes, nº 75).

Pelas muitas e graves falhas, lançou-se o descrédito sobre os partidos e seus líderes. Jamais devemos culpar uma coletividade pelas faltas de alguns ou muitos de seus componentes. Pelo contrário, cabe exortar os homens de bem a que sirvam à pátria em um campo difícil e espinhoso. O fato de alguns se locupletarem dos cargos ou buscarem as funções eletivas com objetivos escusos, o que é, infelizmente, uma realidade, não deve impedir que pessoas de bem, por idealismo, optem por esta vocação. E cabe aos cristãos apoiarem os leigos idôneos quando exerçam mandatos, a fim de se sentirem amparados no esforço em prol do bem público. A conotação moral, portanto, na escolha de candidatos dignos merece cuidado porque, à margem da ética, nada se constrói de duradouro.

Nesse sentido, embora a existência de corrupção e múltiplos episódios conduza a esse desencanto, jamais deve impedir o cumprimento do dever de votar e, mais ainda, de escolher o melhor. Trata-se de contribuir na luta contra os maus, os que procuram servir-se e não servir à coletividade.

É necessário que também a oração pelo bem do Brasil nesse período decisivo seja um instrumento fecundo. O cristão que, por obrigação legal, vota, também por motivo religioso reza em prol do país e da escolha de seus representantes políticos, para que sejam capazes, honestos e observantes da lei de Deus.

Não nos esqueçamos que os compromissos decorrentes das urnas continuam até ao final dos mandatos e que o resultado delas perdurará por longos anos. Peçamos a Nossa Senhora Aparecida que nos ilumine para que possamos escolher bem nossos governantes.

*Arcebispo emérito do Rio