Tudo deve ter apenas o seu devido tamanho

Em 1966 ficou célebre uma polêmica criada pela mídia inglesa sobre uma frase mal interpretada, dita pelo beatle John Lennon, acerca de Jesus Cristo. Agora, 44 anos depois, muitos voltam a querer ser mais realistas do que o rei, dando ressonância a uma suposta declaração da candidata petista, Dilma Rousseff, que teria afirmado que “nem Jesus Cristo” impediria sua vitória – ela nega com veemência ter dito tal frase.

No caso de Lennon, não houve desmentido e foi um caso típico de interpretação equivocada – que provocou a fúria de muitos fãs contra os roqueiros. O artista não pretendia se autoexaltar ao dizer que os Beatles eram “mais famosos do que Jesus Cristo”. Ao contrário, dava um alerta à Igreja Católica, para que se repensasse, pois um mero grupo musical mobilizava mais a juventude do que ela.

Agora, a frase, dita ou não por Dilma, tomou enorme tempo em explicações no encontro da candidata com entidades religiosas. Mas, vamos e venhamos, ainda que a candidata tenha proferido a frase num arroubo de entusiasmo, não se pode mudar – ou manter – o rumo de uma eleição por causa disso. Por mais que cargos tenham liturgia, e figuras públicas devam ter cuidado com o que dizem, é preciso ter a noção de que políticos são pessoas. Quantos de nós já não dissemos alguma vez, comentando ou mesmo desabafando, coisas como “nem Jesus Cristo me demoverá desta ideia”, ou “nem Jesus Cristo impedirá meu time de ser campeão”? É só um modo de dizer – certamente não o melhor, é fato. Sem contar que, em época de eleição, os candidatos fogem de polêmicas, e tudo o que disserem hoje poderá não valer depois da eleição.

Senão, vejamos: no tal encontro com os religiosos, além de Cristo, discutiu-se se Dilma era contra ou a favor do aborto. A candidata viu-se obrigada a sair pela tangente, dizendo que pessoalmente não enviaria nenhuma proposta a favor da prática, mas que isso poderia ser apresentado pelo Congresso – setores influentes do PT sempre se mostraram favoráveis à legalização do aborto. Ou seja, falou-se mais o que a plateia queria ouvir.

Na política, todas as coisas devem manter-se em seu devido tamanho. E o dessa polêmica é bem pequeno.