A unidade e a visita

Escrevendo daqui, de Roma, durante o abençoado tempo da visita ad limina, não posso deixar de expressar meus sentimentos de comunhão que abrasam nosso coração nestes dias e dizer quanto estamos rezando para que a unidade contagie toda a nossa arquidiocese. Para que o mundo creia, disse Jesus! Quanta responsabilidade para todos nós! Gritemos por todos os meios a importância da comunhão eclesial, e a vivamos com alegria e generosidade!

A unidade da Igreja não é um resultado do acaso, nem um sentimento passageiro, nem muito menos um consenso político, mas é proveniente da comum profissão de fé, amor fraterno e, sobretudo, do transcendente e sobrenatural que existe entre o Pai e o Filho e o Espírito Santo. 

 A unidade da Igreja não é, portanto, comparável com a unidade de um corpo político, mas é um efeito da união da Santíssima Trindade e da união hipostática de Jesus Cristo, que se torna comunhão perfeita entre a natureza divina e a humana.  Estamos aqui num ambiente de unidade mística e espiritual, antes de união apenas física ou humana, embora sejam próprias também da Igreja, mas estas devem ser reflexo da comunhão de vida no amor e na fé.

 Sempre que houver uma separação, uma divisão em sua estrutura e em sua organização, este reflexo torna-se obscuro, nebuloso, e nada significa, não é sacramento da verdadeira unidade desejada por Cristo.  Antes de estarmos submetidos a uma autoridade apenas de estrutura, e não a uma autoridade espiritual de Cristo, estaremos falhando na busca desta unidade eclesial.

 A visita ad limina supre estas duas necessidades na busca da unidade. Ao mesmo tempo em que nos confraternizamos e nos regozijamos por estar unidos estruturalmente ao sucessor de Pedro, nos unimos a este na nossa reafirmação, nossa ratificação de refletirmos em nossa atividade pastoral em nossas dioceses esta mesma unidade de fé e de comunhão de obediência e na fé em Jesus Cristo.

 Na celebração que presidi na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, segunda-feira, recordei a todos os irmãos bispos que a nossa peregrinação era uma volta às fontes, quando nos sentimos confirmados com Pedro na pessoa do papa, tanto na audiência pessoal como para o regional, depois nos encontros com os vários dicastérios que ajudam o santo padre a governar a Igreja, e com as celebrações nas basílicas romanas – locais da história da Igreja que veneramos, pois ali estão sepultados irmãos nossos que deram a vida por causa de Cristo e lavaram este chão com o seu sangue. 

Nesta visita, o modo de enxergar Roma e os locais de peregrinação é diferente, e todos nos sentimos comprometidos com a comunhão, unidade, evangelização, testemunho e renovação de nossas vidas. Não é um ato formal, mas um momento de fé intensa, que deve ser vivido com alegria e compromisso. Assim nos ensina Jesus a pedir: “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles sejam um em nós, e para que o mundo creia me enviaste” (Jo 17, 21). 

 A visita ad limina, portanto, é uma resposta a este mandamento do Senhor, demonstrando e reforçando a íntima e vital relação que existe entre as Igrejas diocesanas e a Igreja universal.  Com ela reforçam-se os laços de fé e de confiança filial entre os bispos e o papa, dando uma dimensão visível para a catolicidade da Igreja.  Assim sendo, os próprios fiéis sentirão, através do seu bispo, a sua participação e a sua comunhão com a verdadeira Igreja de Cristo, católica e apostólica.

 Pedimos e oramos com o Senhor para que o fruto desta comunhão que mantemos com Pedro possa e deva se refletir também no ambiente diocesano.  A comunhão hierárquica, os sacerdotes e os diáconos em torno de seu bispo nos inserem na mesma lógica da comunhão sentida nestas visitas ad limina. Essa comunhão, certamente, dá autenticidade de edificação e de crescimento da Igreja.  Portanto, torna-se imperativa uma verdadeira comunhão de vida, e não apenas de obediência, entre os bispos e o seu presbitério, condição para a fecundidade do corpo da Igreja.

 Há, certamente, inúmeras atitudes ou “pecados” que vão contra essa comunhão eclesial. Há atitudes sectárias, personalistas que buscam distinção, privilégios e serviços especiais, e assim demonstram total desprezo pela comunhão. Tornar-se disponível ou educar-se para a eclesialidade é, certamente, serviço para a unidade. Se Jesus orou pela unidade da sua Igreja, o mínimo que podemos fazer é nos colocarmos em busca desta unidade para colaborar com a resposta que o Pai quer: que façamos a oração do seu Filho.  Se Jesus orou, dentro em si a perspectiva da cruz, nós podemos entender a importância que ele dá, então, a esta unidade.  A unidade da Igreja é uma resposta a um convite claro que nos faz Jesus. Não deve ser uma questão secundária de nossa vida de Igreja.

 A visita ad limina é um momento particular de graça, um tempo favorável para nos sentirmos mais Igreja, mais em comunhão. Constitui uma singular lição de eclesialidade prática e uma profunda experiência no mistério da Igreja.

 A bênção que pedi ao santo padre, e que dele recebi, pertence, na verdade, a toda a arquidiocese. Sou portador desta bênção e da mensagem que a nós todos dirigiu, e que exige de nós todos, bispos, presbíteros, diáconos, religiosos e religiosas, leigos e leigas, um evidente sinal de generosidade ao santo padre. É nesta unidade que crescemos e que se estenderá a todo o futuro de nossas atividades arquidiocesanas.

 Em um ambiente saudável de união tudo fica mais fácil de ser planejado e concretizado. O crescimento interno dos nossos sentimentos de unidade na Igreja é testemunho que dá muitos frutos: para que o mundo creia! Sem a unidade, a Igreja perde a sua razão mesma de ser – testemunha da verdade do Evangelho.

* arcebispo do rio de janeiro