Dois tipos de cafezinho

Antonio Brás Constante *, Jornal do Brasil

RIO - Falemos de dois tipos de cafezinho, um deles é feito com café e o outro... também. É como no caso dos crimes: a raça humana é a mesma, o que muda é sua composição financeira, sua marca, sua qualidade diante de seus atos de amoralidade. Uns são pobres, outros ricos.

O café de coador (com filtro ecológico ou não) é até parecido com um colarinho branco. É bem preparado, refinado, tem aroma agradável (apesar de não cheirar bem) e é feito geralmente em bons ambientes (boas escolas, bons bairros, bons lares, etc).

O crime tipo café solúvel sai de qualquer jeito, meio de improviso, é torrado e queimado pela sociedade. Possui gosto duvidoso, sendo 100% marginalizado. É do tipo rotulado, que a maioria engole sem gostar.

Os crimes de colarinho branco são pomposos, requintados, enquanto os crimes marginais são geralmente requentados. Um é servido em xícaras de porcelana com colheres de prata, já o outro vai servido no copinho de plástico mesmo, mexido com colherinhas também de plástico ou até mesmo com o próprio dedo.

Mas em momento algum desejo dizer que um é melhor do que o outro, ao contrário, no fundo os dois são iguais (indiferente se lá no fundo alguém encontre rastros de adoçante ou dólares), apenas um é mais bem preparado que o outro. O café colarinho branco tem mais rebusco e bons discursos para subtrair nossos parcos recursos (nada de: passa a grana , e sim: conto com seu voto, amigo eleitor... ).

Talvez a analogia fosse mais bem entendida se utilizássemos a cachaça e o uísque importado, já que o estrago ao organismo seria praticamente o mesmo, porém, o uísque é um veneno que vem embalado de forma bem mais sofisticada e com cifras infinitamente mais caras.

Enfim, no final das contas, o café, assim como o crime, é algo que todo mundo sempre acaba tomando. Onde a maior máquina expressa desse tipo de iguaria (recheada de mesquinharia) é o nosso (isso mesmo, meu, seu, nosso!) indelével e execrável Congresso Nacional.

* escritor