Dilma em horário de propaganda eleitoral

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

RIO - O mais criativo desafeto da democracia não inventaria um veneno mais poderoso do que o horário eleitoral gratuito. A campanha já se arrastava no terreno enlameado dos debates entre os presidenciáveis. Cada qual com o seu ponto fraco, excluindo-se Plínio de Arruda Sampaio, que é um show à parte, com o seu bom humor e a irreverência. E, por outras razões, a candidata Marina Silva, do Partido Verde (PV), que defende a preservação do meio ambiente.

A favorita nas pesquisas, em disparada para ser a primeira presidenta da história deste país, Dilma Rousseff, estreia um vestido a cada dia, como em desfile de modas, está mais comedida, embora não perca a oportunidade de criticar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pela herança maldita das rodovias intransitáveis, os portos em cacarecos e as enchentes que vêm castigando o país, e que parece mandinga das que acendem velas nas encruzilhadas ou as filas que varam as madrugadas nos postos de saúde ou nos atrasos dos trens. Claro, da favelização das grandes e médias cidades e do consumo de drogas, vendidas em todas as favelas ou entregues em domicílio.

Os programas da candidata Dilma são bem editados, coisa de turma competente. Mas, dá voltas para não tocar no tema proibido da desmoralização do Congresso, com estragos no Executivo, entalado em denúncias como a dos cartões corporativos para a farra das compras e os gastos do primeiro escalão.

Não é ainda o mais preocupante, embora uma coisa puxe as outras. O que atordoa como uma pancada na cabeça é que não há nenhuma esperança de uma faxina até onde se consegue enxergar em meio ao nevoeiro da mediocridade. Por respeito à compostura, o horário eleitoral gratuito deveria ser submetido a censura prévia, que respeitasse as críticas mas excluísse as baboseiras. Pouco sobraria, mas seria melhor do que o show que somos obrigados a suportar.

O Congresso não tem cura por muito tempo. Os candidatos à Presidência não podem criticar os senadores e deputados, dos quais dependem como aliados na campanha eleitoral e com quem o eleito terá de se entender no exercício do mandato. E desde já acertando os ponteiros com os candidatos.

A reforma política de que o presidente não cuidou por falta de tempo nas suas passagens por Brasília e por desinteresse: para que mudar se o povo está satisfeito. Com 80% de aprovação nas pesquisas, o sonho da volta daqui a quatro ou a oito anos embala as suas noites nos giros pelo mundo.

E a eleição está decidida: Dilma será a primeira presidenta do Brasil. O que virá depois é que não demoraremos a saber.

* repórter político do JB