Remédio contra elefantes brancos

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Num primeiro momento podem ser avaliados como exagerados os R$ 40 milhões que a prefeitura anunciou que vai gastar com o Parque Olímpico da Cidade do Rock, na Barra da Tijuca, em reportagem publicada ontem neste JB. Não faltará quem afirme que um valor alto como esse estaria mais bem empregado em escolas ou hospitais municipais. Mas uma verba nada tem a ver com a outra. Há dinheiro suficiente para se fomentar a cultura, junto com outros setores. Se os valores não estão sendo bem empregados, aí é outra história. E como preconiza a música Comida, do grupo Titãs, a gente também quer diversão e arte.

Quem viveu os anos 70 e 80 tem alguns motivos para temer a volta dos conhecidos elefantes brancos, obras faraônicas que tinham como objetivo sustentar a política do Brasil Grande , do regime de exceção por exemplo, estádios erguidos pelo Norte e Nordeste do país, em localidades onde o futebol era pouco desenvolvido.

Os tempos são outros, e, embora aquela espécie de paquidermes ainda não esteja totalmente extinta, a expressão anda em desuso. Parece que os maus governantes direcionaram suas ações para obras menos chamativas.

No caso do Parque Olímpico, ele ainda tem como elemento a favor o fato de estar incluído na lista de obras previamente previstas para os Jogos Olímpicos de 2016. Não custa lembrar que foram na Cidade do Rock os principais e praticamente os únicos problemas graves de infraestrutura durante o Pan-Americano de 2007, quando uma competição chegou a ser transferida por causa de uma ventania. Nesse espaço, pelo novo projeto, não haverá competições, mas uma grande área para o lazer dos milhares de atletas que vêm ao Rio para a Olimpíada.

Assim, os R$ 40 milhões não serão investidos no festival Rock in Rio este, sim, terá outros R$ 60 milhões investidos pela iniciativa privada mas em um amplo espaço de eventos culturais e esportivos, que o estarão testando e preparando para sua utilização nos Jogos de 2016. E quanto mais espaços para a cultura e o lazer, mais humano fica o Rio.

Dois pontos devem ser alvo da atenção da população organizada e dos responsáveis pela ordem pública: um é o acesso ao local, já que o trânsito da Barra está no limite da saturação. Será inadmissível que se repitam episódios como os do primeiro Rock in Rio, quando o público precisava caminhar por quilômetros para tomar seu ônibus, ou o show da banda irlandesa U2, que causou um engarrafamento da Barra ao Túnel Rebouças, paralisando a cidade.

O outro é para que a Cidade do Rock, quando for encerrada a Olimpíada, não se torne ícone do desperdício e falta de zelo com o patrimônio público, como a vizinha Cidade da Música, da era Cesar Maia. Este, sim, é um elefante branco da estirpe clássica.