Na Flip, escritora iraniana critica Lula

Isaac Ismar, Portal Terra

PARATY - Sobrou até para o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva a discussão da delicada questão envolvendo mulçumanos e judeus na mesa Promessas de um Velho Mundo, na noite desta sexta-feira (6), durante a Festa Literária Internacional de Paraty. A escritora iraniana Azar Nafisi criticou Lula por sua posição política de neutralidade no início da polêmica condenação de uma mulher iraniana ao apedrejamento pelo governo de Teerã sob a acusação de adultério. Ao lado dela estava o autor israelense Abraham Yehoshua.

"Eu queria dizer que o presidente Lula disse em um primeiro momento que ele não queria intervir nesse assunto, mas não intervindo, ele já está interferindo", lamentou Azar, que foi aplaudida pelo público após essa e outras declarações.

A escritora best-seller continuou a falar sobre o assunto. Ela foi exilada do Irã em 1981, quando a expulsaram por se recusar a usar véu na Universidade de Teerã, onde lecionou literatura. Atualmente Azar vive nos Estados Unidos e é autora do livro Lendo Lolita em Teerã, traduzido para 32 línguas e na lista dos best-sellers do The New York Times por 117 semanas.

"Oitenta por cento do povo iraniano está incomodado com o presidente Mahmoud Ahmadinejad. Então, 80% dos iranianos deveriam vir para o Brasil", descontraiu, arrancando mais aplausos. "O Brasil não tem pena de morte. Como uma pessoa (Lula) pode ser amiga de outra pessoa (Ahmadinejad) que apedreja uma mulher?", questionou Azar.

Ela disse ainda que concordou com Lula quando ele afirmou que apenas Deus pode tirar a vida de um ser humano: "Espero que os iranianos possam vir ao Brasil e o Brasil a Teerã".

O escritor Abraham Yehoshua também engrossou a polêmica usando do bom humor. "Devemos trazer o presidente do Irã para o Brasil e deixá-lo na Amazônia", brincou ele, que começou a carreira como escritor logo depois de completar o serviço militar obrigatório em Israel.

A presença mais constante de notícias em jornais brasileiros envolvendo o Irã foi uma das pautas colocadas em análise no debate. De acordo com Azar Nafisi, seu país é visto no mundo como um lugar onde o terrorismo é dominante, o que segundo ela, é uma visão reducionista. "Quando se fala em Irã, as pessoas imaginam o terrorismo e um presidente autoritário, o que é uma visão de mundo reduzida. O Irã fez uma revolução importante, foi a primeira nação do continente a ter uma Constituição e as mulheres já governaram ministérios", contou.

Abraham Yehoshua teve a oportunidade de expor suas impressões a respeito da tensão entre o seu país (Israel) e o mundo islâmico. "Não dá pra comparar o meu caso com o dela (Azar). Vivemos em Israel num estado livre. Há meios de comunicação para você expor sua opinião. Ter um vizinho (Irã) te vigiando é pertubador. Não sei o que o Irã quer com Israel. Não temos fronteira em comum. O Irã fantasia sobre nós, negando o holocausto. É um país com o qual já tivemos relação diplomática por 27 anos. Espero que essa tensão se resolva sem guerra. O que queremos é que os Estados Unidos, a Europa e o Brasil ajudem para uma solução lógica", clamou Yehoshua, formado em literatura e filosofia pela Universidade de Jerusalém e que tem quatro obras publicadas em português: A Mulher de Jerusalém (2008), A Noiva Libertada (2007), Viagem ao Fim do Milênio (2001) e Shiva (2000).

Sobre as perspectivas de futuro para o Irã, Azar Nafisi preferiu ser esperançosa, como ela própria se definiu: "Detesto fazer profecias. Não sou otimista, mas sou esperançosa. Por causa da história iraniana e da nossa luta de 155 anos por democracia. Assim como aconteceu na África do Sul e no Leste Europeu, é uma luta existencial e não política. O indivíduo tem que ter direito a escolha. O Irã de hoje é o Leste Europeu de ontem".

A literatura tem o papel de recuperar a moralidade no Oriente, de acordo com Yehoshua. Ele disse sentir o 'luto interno' que Azar Nafisi externa ao falar sobre o Irã e os problemas que viveu por lá.

"As religiões dão respostas a questões morais. Vivemos e