A vida litúrgica

Dom Eugenio Sales *, Jornal do Brasil

RIO - Recordando alguns documentos pontifícios, exponho hoje sobre a carta apostólica, do sumo pontífice João Paulo II, Vicesimus quintus annus, comemorativa do XXV aniversário da constituição conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada liturgia . Foi assinada em 4 de dezembro de 1988. No mesmo dia, em 1963, Paulo VI a promulgava, por ocasião do encerramento da segunda sessão do Vaticano II. Ela, juntamente com o decreto Inter mirifica, sobre os meios de comunicação social , foram os dois primeiros dos 16 documentos, frutos daquele Concílio.

Esta carta apostólica pode ser, em toda sua extensão, dividida em duas partes ou resumida sob uma dupla perspectiva. Estimula e valoriza a reforma litúrgica; igualmente, retifica desvios, restabelece o rumo correto e adequado para que obtenha os resultados desejados. Esta frase revela a linha mestra do pensamento de João Paulo II: Na obra de renovação litúrgica querida pelo Segundo Concílio do Vaticano, é preciso ter presente, com grande equilíbrio, a parte de Deus e a parte do homem, a hierarquia e os fiéis, a tradição e o progresso, a lei e a adaptação, a pessoa singular e a comunidade, o silêncio e o impulso coral (nº 23).

Em matéria litúrgica, é importante andar por caminho seguro, pois, para muitos, a mensagem do Segundo Concílio do Vaticano foi percebida, acima de tudo, através da reforma litúrgica (nº 12). Mediante as modificações na celebração da santa missa, na administração dos sacramentos, no uso dos instrumentos musicais e em outras inovações legítimas e necessárias, os fiéis tomaram conhecimento mais concreto de normas estabelecidas pelo Espírito Santo, através dos padres conciliares, para a Igreja nos tempos presentes.

Há uma característica a salientar: ela desmistifica várias afirmações que levam ao erro inúmeras pessoas. O Vaticano II não alterou substancialmente, não modificou o que constitui o alicerce da obra de Cristo. A proposta apresentada por João XXIII era muito clara: atualizar, sem perder a identidade. Despir o véu formado ao longo do tempo, sem desfigurar o Corpo Místico do Senhor.

A Parte I do documento que ora comentamos tem o título A renovação da linha da Tradição e é concluída com estas palavras: Assim pode dizer-se que a reforma litúrgica é estritamente tradicional, atendo-se 'às normas dos santos padres' (ad normam sanctorum patrum), (constituição Sacrosanctum Concilium, nº 50) (nº 4).

No Capítulo 2, refere-se aos Princípios diretivos da constituição. Passados 25 anos, é conveniente pôr em evidência a importância da Sacrosanctum Concilium, a sua atualidade em relação ao aparecimento de problemas novos e a validade dos seus princípios, que perduram (nº 2). Os elementos fundamentais lembrados pelo papa nesta carta apostólica são a realidade perene do mistério pascal, pois nele fomos sepultados em Cristo no batismo, para vivermos, com ele, uma vida nova (nº 6). Em seguida, a leitura da palavra de Deus: O rito e a Palavra andam continuamente unidos (nº 8). Depois: A manifestação da Igreja a si mesma . Em sua renovação devemos apresentá-la una, santa, católica e apostólica.

Na Parte 3 trata das Orientações que hão de guiar a renovação da vida litúrgica. Essa tarefa permanente pertence a todo o Corpo da Igreja: E é por isso que a ninguém é permitido, nem sequer a um sacerdote ou a qualquer grupo, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for, por sua iniciativa. A fidelidade aos ritos e aos textos autênticos da liturgia é uma exigência da lei da oração , que deve estar sempre em conformidade com a lei da fé (nº 10).

O Capítulo 4 aborda a Aplicação concreta da reforma, as dificuldades com inovações fantasiosas, afastando-se das normas dadas pela autoridade da Santa Sé ou pelos bispos (nº 11). Ao mesmo tempo mostra os efeitos positivos, que foram inúmeros. Igualmente, alerta para as aplicações errôneas: Ao lado destes benefícios da reforma litúrgica, é necessário reconhecer e deplorar alguns desvios, mais ou menos graves, na aplicação da me