Francisco e Gustavo

Permitam-me chamá-los assim, na intimidade, papa Francisco e teólogo Gustavo Gutiérrez. 

A notícia, de 13 de setembro: “Na quarta-feira à tarde, Bergoglio também recebeu, na Casa Santa Marta, Gustavo Gutiérrez, histórico teólogo peruano e pai da Teologia da Libertação, em um clima de reconciliação (depois das polêmicas das últimas décadas) com esta corrente teológica que nasceu na América Latina”.

LOsservatore Romano publicou em 10 de setembro uma entrevista de Ugo Sartori com Gustavo Gutiérrez, na qual, entre outras coisas, o teólogo peruano enfrentou o tema das duas instruções de 1984 – Libertatis nuntius e de 1986 Libertatis conscientia , publicadas pelo Vaticano quando o cardeal Joseph Ratzinger dirigia a Congregação para a Doutrina da Fé. “Estes documentos, particularmente o primeiro, estigmatizaram algumas posturas da Teologia da Libertação, pois teriam sofrido algumas influências da análise marxista”. Na opinião do padre Sartori, no L’Osservatore, “com um papa latino-americano, a Teologia da Libertação não podia permanecer por muito tempo no cone de sombra em que foi relegada há alguns anos, pelo menos na Europa.

Bons ventos e boas-novas. Para quem como eu cresceu à sombra da Teologia da Libertação e tinha, jovem estudante de teologia e franciscano, anos 1970 — e isto é ao mesmo tempo memória e homenagem —, a referência dos livros Teologia da Libertação, de Gustavo Gutiérrez, Jesus Cristo Libertador, de Leonardo Boff, Cartas da Prisão, de Frei Betto; para quem como eu, e muitas e muitos de nós, teve mestres, nos anos 1970 e 1980, como os irmãos maristas Antônio Bertolini e Firmino Biazus, no Ceta (Centro de Treinamento para a Ação) e os seus Peregrinos, o irmão marista Antônio Cechin e sua Catequese da Libertação, o padre Orestes Stragliotto, no Centro de Orientação Missionário (COM) e no Centro Ecumênico de Capacitação e Assessoria (Ceca), em Caxias do Sul, frei Arno Reckziegel, pioneiro em comunidades inseridas em vilas populares, o padre jesuíta Hilário Dick, no Instituto de Pastoral de Juventude (IPJ em Porto Alegre, com o Cajo (Curso de Assessoria de Jovens); para quem como eu, e muitas e muitos, cresceu na vida e na militância na Pastoral de Juventude, nas CEBs, na Pastoral Operária e hoje no Movimento Fé e Política; para quem como eu sofreu as durezas e consequências de fazer a opção pela Teologia da Libertação – expulsão do curso de teologia da PUC-RS com mais três colegas em 1975, na sequência negação de diaconato e ordenação para o sacerdócio em 1976, demissão sumária de colégios como Nossa Senhora da Glória e Anchieta, de Porto Alegre, como professor de Orientação Religiosa; para quem como eu, e muitos/as religiosos/as e jovens, como forma de viver a fé, a opção da vida religiosa e o compromisso com os pobres, foi morar em vilas populares da Lomba do Pinheiro, da vila Arapeí em Porto Alegre, no bairro Cruzeiro em Venâncio Aires, na vila Santo Operário em Canoas, no bairro Fátima em Cachoeirinha, tudo no Rio Grande do Sul,  e os padres Alex e Dotto em São Gabriel, padre Arnildo Fritzen em Ronda Alta, padre Roque Grazziotin em Caxias do Sul, padres João Schio e Julinho em Antônio Prado. Tantos e tantas outras e outros.

Foi um (re)encontro histórico, Francisco e Gustavo, dois latino-americanos, um argentino, um peruano, que voltam a impulsionar uma teologia popular, comprometida com os pobres e a libertação — indígenas, trabalhadoras/es, negras/os, jovens, catadoras/es de material reciclável, pescadoras/es, agricultoras/es familiares e camponeses —, a fé colada à vida e à realidade, na construção do Reino já a partir deste mundo, Reino de justiça, igualdade, solidariedade, fraternidade e paz. 

A Teologia da Libertação voltou. Escrevi em fevereiro, em Quero um papa do Sul: Quero um papa do Sul para que cada um e cada uma, como fiéis cristãos/ãs e leigos/as que queiram, possam aderir à Teologia da Libertação, sem medo e sem perseguições. Quero um papa do Sul que seja humano, não um quase Deus longe do povo, da vida e do testemunho dos fiéis e da realidade vivida por cristãos e comunidades. Quero um papa do Sul compreendendo os novos ventos que sopram na América do Sul e América Latina, os movimentos sociais e governos democráticos e populares da região. Quero um papa do Sul para olhar com outro olhar, tal como Jesus olhou e abençoou a samaritana, olhar e abençoar as mulheres, os homossexuais, todas e todos aqueles sempre desprezados/as e jogados/as à margem. Quero um papa do Sul para olhar para os pobres e trabalhadores/as e dizer: Vinde a mim os pequeninos, porque de vocês é o Reino dos Céus”.

E terminava assim: “Estou querendo muito? É sonho? Um dia, se não agora, irá acontecer. E em algum tempo da história, será uma mulher”.

A vida e a história não param. E acontecem a partir dos de baixo, da periferia, da América Latina, onde nasceu a Teologia da Libertação, onde ela continua vicejando e onde o sonho de mudar o mundo e construir o Reino continua vivo.

* Selvino Heck, assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República, faz parte da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política.