Com eletrodomésticos destruídos pela prefeitura, barraqueiros aguardam financiamento prometido

Há quase cinco meses, agentes da Secretaria de Ordem Pública destruíram, com retroescavadeiras, mais de 50 quiosques instalados na Praça Miami, principal ponto comercial da Vila Kennedy, na Zona Oeste da cidade. Ao todo, as barracas empregavam mais de 200 pessoas. Desesperados, alguns comerciantes se jogaram no chão para tentar evitar a ação da prefeitura. Em vão. Depois de forte comoção popular, no entanto, o prefeito Marcelo Crivella se arrependeu e prometeu não só reconstruir as barracas, como também criar uma linha de financiamento para que os microempreendedores repusessem os eletrodomésticos destruídos pelos agentes. 

A promessa da linha de crédito também vai completar cinco meses, mas até agora nada saiu do papel. Enquanto isso, a maior parte dos novos quiosques da praça, já entregues pela Prefeitura, continua fechada. Moradores dizem que não têm como reabrir as portas, por falta de equipamentos,  inutilizados durante a ação do governo. 

“Depois que as nossas coisas foram destruídas, nos prometeram uma linha de financiamento pra gente repor os equipamentos que tínhamos. Isso, por si só, já foi um desrespeito, porque a prefeitura veio aqui e destruiu as nossas coisas. Eram nossos instrumentos de trabalho. A gente só quer trabalhar, não queremos nada de mão beijada”, desabafa a vendedora de quentinhas Grasiele Gomes de Assunção, de 40 anos. Nos últimos cinco anos, ela se dedicava diariamente ao trabalho no trailer para sustentar seus cinco filhos. Seu marido e sua mãe também passaram a trabalhar ali, depois que ficaram desempregados. Há quase cinco meses sem o ganha-pão da família, ela tenta vender quentinhas em casa. Mas, sem a mesma  demanda da praça, a renda diminuiu. 

“A maior parte dos barraqueiros vendia comida, assim como eu. Por isso, era fundamental manter um ou mais freezers. Mas não é um eletrodoméstico barato. O meu parou de funcionar quando vieram remover tudo. Sem trabalhar, não tenho como comprar outro. É humilhante, porque o prefeito nos prometeu que teríamos uma margem para financiar o que foi perdido, listaram tudo o que foi destruído, e até agora nada foi cumprido”, reclama.

Depois de toda a destruição, os novos quiosques foram entregues aos proprietários    há uma semana. A praça também foi revitalizada. Ao custo de R$ 2,6 milhões, ganhou nova iluminação, parquinho infantil, academia da terceira idade, relógio para medição do consumo de energia e ponto de água tratada e esgoto. Mas o principal não foi resolvido, segundo Oraci Rodrigues, de 55 anos, que vendia sopas na praça. “O mais importante é termos condições de trabalhar e sustentarmos nossas famílias. E isso ainda não aconteceu. Eu perdi dois freezers, acreditei no financiamento que nos foi prometido e... nada! A única promessa cumprida foi a do aluguel social, mas precisamos dos nossos equipamentos para voltar ao trabalho. E o quiosque que a gente recebeu é muito mais frágil que o antigo”, afirmou Oraci, enquanto improvisava uma prateleira no novo equipamento de trabalho. 

Fagner Oliveira, 33 anos, vendedor de açaí na Praça Miami há 16, diz que o sonho da legalização do negócio se transformou em pesadelo. “A gente sempre quis se regularizar, mas não precisavam ter destruído as nossas barracas e as nossas coisas para depois nos darem a licença. Hoje não temos como trabalhar, mas temos que pagar uma taxa de licença de R$ 80, além de consumo de luz e água. O problema é pagar isso sem ter como ganhar esse dinheiro. Precisamos dos nossos eletrodomésticos”, diz.

Procurada, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Emprego e Inovação informou, por intermédio de uma nota, que ajustes estão sendo feitos “junto à Caixa Econômica para a liberação da linha de crédito para os comerciantes”, mas ainda não há, sequer, prazo estipulado para a promessa, de fato, sair do papel. A demora foi atribuída aos “trâmites com a Caixa Econômica”.