Botafogo sofre com furto de celulares

Coincidência ou não, número de casos cresceu 400% desde a transferência da Vale para Praia

O bairro de Botafogo, na Zona Sul, sofreu um aumento de 400% nos furtos de celulares em relação a igual período de 2017. Segundo o inspetor Amaury Moreira S.Filho, lotado na 10ª Delegacia Policial — que abrange Botafogo, Humaitá e Urca —, 70% das ocorrências da delegacia são furtos. A chegada, em dezembro de 2017, dos cerca de 400 funcionários da Vale à Torre Niemeyer, entre a Praia de Botafogo e a Rua Barão de Itambi, ao lado da sede da Fundação Getulio Vargas (FGV), pode estar contribuindo para essas estatísticas. A funcionária Bruna Tinoco, 21 anos, há um ano na Vale, está entre os que já passaram pela desagradável experiência: “Fui abordada por dois garotos, um deles armado, e levaram meu celular. Agora, não saio com nada de valor, só meus óculos”, confessa.

Durante a pouco mais de uma hora em que o JORNAL DO BRASIL falou, ontem, com os funcionários que saíam para almoçar, na saída dos fundos da torre, não havia um que não tivesse uma história para contar. “Dois colegas do meu setor foram assaltados na Praia de Botafogo quando saíam para almoçar, um deles a mão armada”, relatou o funcionário Diogo Barros. “Três colegas minhas foram assaltadas quando saíam da Academia Max Forma, aqui perto, onde fazem ginástica ao sair do trabalho”, reforçou a também funcionária Claudia Albuquerque, que saía para almoçar acompanhada de Diogo. “Tem gente dizendo que não desce mais de relógio ou celular. Antes trabalhávamos num shopping, agora temos que nos adaptar a essa nova realidade”, lamenta ela. A rotina passou a ser tão incorporada na vida dos funcionários que muitos reagiam com a resposta “ainda não” à pergunta sobre se já haviam sido assaltados.

Embora o próprio Diogo admita que a chegada em massa de pessoas de maior poder aquisitivo à região possa ter a ver com este aumento da incidência de furtos, claro que o alvo dos ladrões não são os funcionários desta ou daquela empresa. Acontece que muitos dos que trabalham por ali acabam expondo seus celulares para chamar o Uber e se tornam vítimas involuntárias dos ladrões. “Acontece mais no início da manhã e no fim da tarde. Quem faz hora extra, então, corre mais risco”, avalia a administradora Márcia Moraes, 34 anos, funcionária da empresa Modec, que funciona no mesmo prédio. “Outro dia vi um rapaz ameaçando uma mulher com uma faca. Vivemos uma sensação de insegurança muito ruim”, acrescenta. 

A advogada Shirley Ramos, 60 anos, que trabalha no prédio sede da FGV, já levou três corridas de pivetes na Rua Barão de Itambi. “Numa delas o garoto me ameaçou com um pedaço de pau. Corri e consegui fugir. Realmente, é um lugar com muito assalto. Esses meninos andam em grupo, tenho visto também muitas meninas entre eles, cheirando cola”, relata ela. 

Embora durante todo o tempo em que o JB permaneceu próximo à Torre Niemeyer não tenha passado um policial ou um carro de polícia, Irenildo Queiroz, proprietário do Mustache, Boteco do Bigode, na Rua Farani, a poucos metros dali, diz que a situação melhorou um pouco nos últimos dois meses. “Já fui assaltado três vezes por ladrões de moto (que não são os mesmos que atuam em torno da FGV), também já cansei de correr atrás de trombadinhas assaltando meninas e idosos do outro lado da calçada, e tenho feito muita pressão. Com isso, começaram a passar patrulhinhas por aqui nesses últimos meses”, diz Bigode. 

Rota de fuga

Embora, conforme o inspetor, não haja nenhum detalhamento na 10ª DP dos locais de maior incidência de furtos, a grande maioria dos casos ocorre em Botafogo, “rota de fuga que liga o bairro ao complexo do Morro da Mineira, São Carlos, Fallet e Coroa, no Catumbi, Zona Central da cidade”, segundo Amaury Filho. Muitos dos assaltantes vêm do Morro Azul, que fica atrás da Rua Paulo VI e perto da saída da Estação Flamengo do metrô, onde também é grande a incidência de furtos. Segundo ele, os homens da PM que policiavam as ruas foram deslocados para as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), e a Polícia Civil não pode sair das delegacias. “Não temos nem viaturas. Essa que está na porta da delegacia está quebrada há quatro meses. Em 2013, tínhamos mais de cem agentes, agora não chegam a 30”, contabiliza.

Em dezembro de 2017, a Vale deslocou para Botafogo seus funcionários que se dividiam entre a sede do Shopping Città América, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste, e do Shopping Leblon, na Zona Sul, para salas que ocupam da 501 à 1901 da Torre Niemeyer. Entre os entrevistados, houve quem afirmasse que a Vale — cuja assessoria de imprensa se absteve de fazer comentários quando foi procurada pelo JB — distribuiu seguranças pelos arredores do prédio, que contribuem para amenizar a sensação de insegurança. Mas  não dá para afirmar que a simples presença da Vale por ali atiçou a cobiça dos ladrões, até porque a empresa sucede no prédio a Andrade Gutierrez, a toda poderosa que se tornou um dos grandes alvos da Operação Lava Jato.