Crivella anunciou retomada das obras da Transbrasil, mas adiamentos deixaram dívida de R$ 81 mi

Depois de ficar dois períodos parada em menos de três anos, as obras da Transbrasil, corredor expresso de BRT (Bus Rapid Transit) criado para ligar o bairro de Deodoro, na Zona Oeste, ao Centro, serão retomadas este mês. O anúncio foi feito, ontem, pelo prefeito Marcelo Crivella. A boa notícia, no entanto, não é tão alvissareira assim. Como está atrasada há quase um ano e o contrato com o consórcio prevê reajuste anual, a prefeitura terá que desembolsar R$ 81 milhões a mais do que o previsto inicialmente, segundo fontes ouvidas pelo JORNAL DO BRASIL. A cifra pode ser ainda maior, em caso de novos adiamentos. 

Considerada a maior empreitada de mobilidade em andamento no país, a Transbrasil começou a ser construída em 2015. A promessa do ex-prefeito Eduardo Paes, na ocasião, foi de que ela seria entregue à população em julho do ano passado. Desde então, porém, os trabalhos foram interrompidos duas vezes. A primeira, a pedido do próprio Paes, em agosto de 2016, por conta da chegada dos Jogos Olímpicos. Acabou parada por oito meses.

Retomada em abril do ano passado, ante o pagamento de R$ 115 milhões de reajuste contratual ao consórcio, a empreitada voltou com força total, com o mesmo contingente de 1.500 operários. Mas a boa fase durou pouco: em menos de um ano, foram paralisadas novamente, em março deste ano, porque a Caixa Econômica Federal contingenciou os repasses, porque o Ministério das Cidades questionou a funcionalidade da obra, que contemplava apenas o trecho entre Deodoro e o Caju, e não chegava à Rodoviária Novo Rio. Para conseguir a liberação dos R$ 450 milhões restantes do orçamento total da obra que estavam sendo contigenciados, a Secretaria Municipal de Urbanismo propôs a substituição de um trecho que seria feito em concreto por asfalto, para que, com a economia se completasse o trajeto entre o Caju e a Rodoviária Novo Rio. Isso demandou ainda mais tempo para a análise por parte do Ministério das Cidades.

“Quanto mais o tempo passa, mais cara a obra fica. Existe um custo toda vez que um canteiro de obras é desmobilizado. Os funcionários são demitidos e, depois, têm que ser readmitidos. Além disso, trabalha-se com equipamentos pesados, caros, que precisam de manutenção, por ficarem muito tempo parados”, informou uma fonte.

O prejuízo de R$ 81 milhões deverá ser pago diretamente pela prefeitura ao consórcio, e não tem relação com o montante de R$ 1,4 bilhão inicialmente destinados à construção (R$ 1,3 bilhões oriundos do governo federal e outros R$ 100 milhões, dos cofres municipais). 

Procurado, o ex-prefeito Eduardo Paes informou que as obras “foram suspensas apenas durante as Olimpíadas para garantir a maior fluidez do trânsito naquele período atípico”. Mas, nos “meses seguintes, as empreiteiras desrespeitaram o contrato e não retomaram as obras, pois a gestão passada não concordou com os reajustes que elas tentaram impor [os tais R$ 115 milhões]”. Em nota, a Prefeitura do Rio não comentou os R$ 81 milhões de reajuste anual que deverá ser cobrado do município em novembro, mas destacou que, atualmente,  não existe nenhum “reajustamento atrasado”, porque a dívida de R$ 115 milhões foi paga.

Enquanto a obra não chega ao fim, beneficiando cerca de 400 mil passageiros diariamente, a população convive com o canteiro de obras que se espalha por grande extensão da Avenida Brasil. Moradora de Campo Grande, Zona Oeste, a secretária Marcilene Santos lamenta a deterioração do que já foi construído. “Torço para que todo esse material usado na obra e a mão de obra já empregada não tenham sido em vão, e que esse obra realmente saia do papel. Por enquanto, só promessa. Esse dinheiro é nosso”, ressalta. 

Em discurso ontem, em Bonsucesso, o prefeito Marcelo Crivella, acompanhado do subsecretário municipal de Infraestrutura e Habitação, Sebastião Bruno, prometeu concluir as obras em um ano: “(...) Fizemos uma série de adaptações, mudamos algumas coisas que achávamos que estavam acima do preço e tivemos que economizar também, porque a crise é grande. E, finalmente, acertamos um acordo com a Caixa e o Ministério das Cidades para que o BRT fosse concluído em todo seu trecho, da Central do Brasil até Deodoro [o trecho entre a Novo Rio e a Central já está pronto]. Mais de dois mil operários voltam ao trabalho, depois de oito meses de intensas negociações, que chegaram a uma conclusão favorável à nossa cidade”, afirmou. 

Se tudo der certo, o BRT irá de Deodoro até a Rodoviária Novo Rio. De lá, seguirá também em pista exclusiva, até o Terminal Américo Fontenelle, atrás da Central do Brasil, em pista já construída pela Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio como exigência do legado olímpico. 

Segundo a prefeitura, o complemento do trecho do Caju até a Novo Rio não implicará em aumento do orçamento inicial. Para fechar a conta, a prefeitura economizou na pavimentação feita de Irajá a Deodoro, substituindo o piso concretado por  asfalto. A troca foi alvo de muitas críticas de especialistas em transporte, que apontam uma falsa economia na medida, porque o asfalto é mais barato, mas tem menos durabilidade e requer maior manutenção. 

Além da conclusão do trajeto Deodoro-Central do Brasil, três terminais rodoviários de ligação serão construídos: o de Deodoro, que se conecta à Transoeste e à Transolímpica; o do Trevo das Margaridas, para absorver quem vem da Baixada Fluminense pela Rodovia Presidente Dutra; e o do Trevo das Missões, que receberá o fluxo da Baixada pela Avenida Washington Luiz. O edital para as obras dos terminais será lançado em setembro pela Prefeitura do Rio. O terminal em Deodoro custará aproximadamente R$ 100 milhões, e os outros dois, R$ 50 milhões cada um. O tempo estimado para a conclusão das três estações é de 18 meses, e os recursos são do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).