Mulheres negras marcham em Copa

Turbantes e pintura de guerreiras núbias em defesa de políticas para reverter violência

Um desfile de mulheres vestidas de turbantes, como aqueles usados pelas rainhas africanas, e com rostos pintados como as guerreiras núbias, da tribo onde nasceu Nélson Mandela, arrancou olhares de admiração e curiosidade na orla de Copacabana, na manhã de ontem. Ao som de músicas africanas, milhares de moradoras fluminenses cobraram mais políticas públicas para a mulherada negra. Do Posto 4,  elas seguiram até o Leme, arrastando moradores da região, solidários à causa, durante a quarta edição da Marcha das Mulheres Negras. 

“Somos um grupo que ainda está na base de todas as pirâmides. Nós, mulheres negras, somos as que mais morremos de mortes evitáveis, como o parto, por exemplo. Isso é inaceitável. Também somos as que mais morremos vítimas de violência. Desde 2013, a ONU vem alertando que, enquanto o número de mortes violentas de mulheres negras aumenta, o de brancas diminuiu”, alerta a organizadora da marcha, Claudia Vilatino, de 50 anos, presidente da União de Negros pela Igualdade (Unegro). 

“Além disso, somos mães e sofremos muito com  o extermínio da juventude negra, esse problema está desenfreado no Rio de Janeiro, e isso precisa mudar. Também somos minoria no Congresso Nacional, mas esse jogo tem que virar. Não queremos eleger alguém que nos dê voz, queremos ser a nossa própria voz. Precisamos de mulheres negras no parlamento!”, bradou Claudia Vilatino.

Afoxé e agogô 

Vestida de kaftan, túnica tradicional dos países africanos e turbante nigeriano, a professora Sandra Marcelino, de 44 anos, diz que desde que o encontro surgiu, em 2013, tornou-se um  importante espaço de reivindicações, onde as mulheres buscam apoio contra “o racismo de todo dia”. 

“Assumi meu próprio cabelo, uso turbante no meu dia a dia e kaftan também. É uma maneira de assumir a minha origem. Já me perguntaram de que país eu venho e respondi que o turbante é uma simbologia da realeza africana, um resgate da minha origem. Turbante é coisa de rainha. Além do racismo que já enfrentamos todos os dias, também percebemos a religiões de matrizes africanas sendo demonizadas!”, queixa-se a doutoranda. 

Ao longo da passeata, os manifestantes jogaram capoeira e tocaram instrumentos de origem africana, como afoxé e agogô. Entre um som e outro, Mônica Cunha, do Movimento Moleque, chamou atenção para o extermínio da população negra. 

“Estamos morrendo muito mais do que conseguindo conquistar os espaços que antes nos eram negados, como a política. Quando conseguimos adentrar um espaço ao qual antes não tínhamos acesso, nos matam. Quando não nos matam, matam alguém próximo de nós, e nos adoecem. O assassinato da Marielle é um exemplo disso”, relembrou.

Assassinato impune 

Mãe da vereadora do PSOL assassinada há mais de quatro meses, sem que até agora o crime tenha sido solucionado, a advogada Marinette Silva cobrou mais respeito: “É impressionante como somos todas discriminadas no nosso dia a dia. Também já sofri muito preconceito”, lamenta.

Integrante do Conselho Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Soninha Nascimento, de 49 anos, alerta para a discriminação enfrentada na rede pública de saúde. 

“Existe um racismo institucional. Sabia que as mulheres negras recebem menos anestesia, porque, ainda nos dias de hoje, há médicos que acreditam que nós aguentamos sentir mais dor do que as mulheres brancas? Isso não parece fazer parte da nossa realidade, mas faz. Anseamos por políticas públicas que nos atendam”.