Leblon comemora 99 anos com inovações que vão melhorar a vida dos moradores

O quase centenário Leblon completa hoje seus 99 anos — marcados por um decreto do governo do estado que passou a considerá-lo bairro —, aliando a tradição ao vigor de futuros projetos que têm tudo para proporcionar longa e pródiga vida a uma das mais nobres área da Zona Sul da cidade. Uma das mais aguardadas novidades é a chegada ao bairro do Leblon Presente, no fim de agosto, um casamento da Associação Comercial com o governo do estado que vai injetar nas ruas, onde se multiplicam os assaltos a mão armada, 124 agentes, ao custo de R$ 10 milhões por ano, para minimizar o inimigo número um do bairro: a (falta de) segurança pública. Também desponta a chance de os moradores ganharem um novo “Central Park”, em parte do degradado terreno de 40 mil m² hoje ocupado pelo 23º Batalhão da Polícia Militar.

Não é pouco, para um bairro que já vem passando por grandes transformações nos últimos 30 anos. A chegada do metrô, de um sofisticado Shopping Center, dos grandes edifícios que passaram a ocupar o lugar dos prédios baixos, sem elevadores ou porteiros, que acabaram por atrair muitos boêmios, estão entre essas principais mudanças. Isso tudo sem perder o charme de balneário, com uma população de 50 mil moradores, inferior à da vizinha Ipanema, num bairro onde muita gente ainda se conhece. 

O fotógrafo Marco Rodrigues, 73 anos, 40 deles vividos no Leblon, que o diga. Ele viveu em Paris com seu companheiro, o pintor Jorge Guinle, antes de se mudar para o apartamento na Rua Aperana, em 1978. Enquanto falava com o JORNAL DO BRASIL, em seu trajeto entre a casa e a academia de ginástica, na Rua Dias Ferreira, apontou para, pelo menos, duas conhecidas que observavam elegantes vitrines de butiques. “O bairro melhorou bastante desde que cheguei aqui. Está muito mais internacional, mais cosmopolita. Essa rua, por exemplo, chamo de intestino grosso, por conta dos restaurantes. Já a Ataulfo de Paiva é a avenida das farmácias”, arrisca. 

Foi lá que nasceu o primeiro “baixo” da cidade, o Baixo Leblon, entre a Ataulfo, a Dias Ferreira e a Aristides Spínola, centro de boemia e intelligentsia dos anos 70, frequentado por personalidades como Fernanda Montenegro e Caetano Veloso, concentrado em points como a Pizzaria Guanabara (1964) e o Jobi (1956). Marco acredita que o ponto de encontro nasceu por conta da pequena praça, batizada de Praça Cazuza depois de ganhar a estátua do cantor, onde as pessoas começaram a se reunir ao sair da praia. O trecho, porém, aos poucos perdeu o protagonismo para o vizinho Baixo Gávea. Esse e outros públicos agora batem ponto no Talho Capixaba, aconchegante ambiente para um café da manhã ou brunch, na Ataulfo de Paiva, por sinal o local escolhido por Marco para comprar os pães artesanais que tanto aprecia. Sem deixar de lado o Bracarense.

Entre os moradores ilustres estão um recluso Chico Buarque, a nem tão discreta Luana Piovani, a colaborativa Alexia Duchamps e Moraes Moreira, que não perde a oportunidade de soltar o gogó sempre que se depara com alguém fazendo música pelas ruas do bairro. 

Presidente da Associação de Moradores e da Associação Comercial do Leblon, cabelereira de profissão, Evelyn Rosenzweig chegou ao Leblon há 40 anos, ao deixar Copacabana, onde foi criada. “Vim direto para o Alto Leblon, e tivemos de inventar a região: faltava água, luz, foi preciso fazer de tudo para conquistar cidadania”, lembra. Deve vir daí seu árduo trabalho, desdobrando-se para atender dos mais abastados — a exemplo dos habitantes da região batizada de Jardim Pernambuco, casarões habitados pelo maior PIB do bairro — aos menos favorecidos, como os da Cruzada São Sebastião, construída na região antes ocupada pela Favela do Pinto, cuja remoção, em 1969, em plena ditadura, foi precedida de um grande incêndio. “São dez prédios de oito pavimentos. O governo do estado não faz a manutenção que deveria: não há elevadores e muita gente vive confinada lá no alto. A instalação de elevadores é uma das principais reivindicações da AmaLeblon”, avalia.

A questão da segurança é outra prioridade. “Em 1994, o batalhão tinha 1.100 homens. Hoje, não são nem 500. Há muitos assaltos a mão armada nas ruas e uma forte percepção de insegurança. Começou a piorar a partir de 1998, quando os PMs deixaram de policiar o trânsito e saíram das ruas”, lamenta Evelyn, que aposta nos resultados do projeto Leblon Presente. O uso parcial do terreno ocupado pelo 23º BPM também está no foco. “Deve sair um leilão do terreno este ano, e há uma proposta de um grupo de empresários da construção civil para fazer ali uma área verde, um centro cultural de três andares com garagens subterrâneas e uma nova sede para o BPM. Já levei o projeto ao governador Luis Fernando Pezão”, conta Evelyn. O empresário e economista Nelson Pompeo Filho, que mora numa cobertura em frente, torce pelo projeto: “Seria um Central Park para os moradores do Leblon”, exulta. 

A data será festejada pelo Circuito Carioca de Artes e Culturas. Além da exposição de trabalhos artesanais, haverá atrações gratuitas hoje, com café da manhã e bolo, a partir das 16h, sempre na Praça Antero de Quental. Amanhã, serão oferecidas técnicas de medicina complementar, como massagens terapêuticas, e um show de Bossa Nova a partir das 17h. E sábado haverá recreação para a criançada, das 9h às 18h e show à tarde.

Quilombo da Chácara do Céu 

Assim como o Vidigal, a Favela Chácara do Céu — um conglomerado de 400 casas simples, todas de alvenaria, habitada por pouco mais de dois mil moradores, na encosta do Morro Dois Irmãos — ostenta uma das mais belas vistas da cidade, debruçada sobre o Atlântico, e representa um importante capítulo na vida da cidade. Existiu ali um quilombo e alguns descendentes de negros escravizados permanecem no local. É o caso da empregada doméstica Rosana Maria do Nascimento, 56 anos, tataraneta de dona Ubelinda, que viveu mais de 100 anos e foi escrava na casa grande, onde hoje é o Clube Campestre. “Ela teve um caso com o patrão e passou a trabalhar como cozinheira. Dessa relação nasceu minha bisavó, de olhos azuis. Depois que ela cresceu, o pai disse que esse terreno onde moramos era dela, mas nunca houve um documento para comprovar. Desde então, passaram a vir muitos escravos para cá e o maior vestígio que deixaram foram os terreiros de macumba”, relata Rosana, cujo marido, Paulo César Ferreira, 60 anos, diretor da Associação de Moradores local, fez uma pesquisa profunda sobre o quilombo e já enviou tudo o que recolheu à Fundação Cultural Palmares, em Brasília, vinculada ao Ministério da Cultura. “Agora aguardamos a visita técnica dessa fundação”, conta Paulo César.