Política e eleições são os temas da Parada LGBTI

Uma manifestação política. Assim Loren Alesxander definiu a parada LGBTI (Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo) que ocorreu ontem em Madureira, Zona Norte do Rio de Janeiro. “Não é carnaval. Somos um ato cívico que exclama a nossa dor. A dor de um Brasil triste, mas que não será abandonado. Continuaremos lutando pelos nossos direitos”, exclamou. 

O ato, que reuniu 1,2 milhão de pessoas, segundo os organizadores do evento, contou com nove trios elétricos temáticos e com a presença de vários artistas, entre eles, Jojo Todynho, Lexa, e David Brasil. Os cálculos até 16h já indicavam 800 mil pessoas espalhadas pela Rua Carvalho de Souza, onde ocorreu a concentração.

“Estou aqui para dar força e celebrar o amor. Desde o início da minha carreira me engajei na luta LGBT. São fãs fiéis e que precisam ser representados”, defendeu Lexa. Representatividade é a principal bandeira levantada por eles neste ano de eleições gerais no país. O tema da 18ª Parada é político: “Vote certo para não chorar! Queremos renovação já”. “Nosso tema é contra essa crise política que a gente vive hoje. Não aguentamos mais sofrer e sermos agredidos pela nossa orientação sexual. Pagamos as nossas contas, não fomos nós que roubamos os cofres públicos, por que tanta violação aos nossos direitos humanos?”, indagou Loren. Para ela, o pré-candidato à Presidência do PSL, Jair Bolsonaro, é uma resposta violenta à violência que o brasileiro vive hoje. “Eu acredito que isso é uma fase, mas ele pode esperar sua própria decadência, porque os LGBTs vão mudar o quadro. E ele vai cair!”, bradou a ativista. 

Desde 1995, Loren lidera o Movimento de Gays, Travestis e Transformistas do Rio (MGTT). Cabeleireira e transformista, ela viveu o início da organização do movimento em Madureira, que migrou de rua em rua conforme as agressões se acirravam. No último dia 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBTI, a Travessa Almerinda Freitas, em Madureira, – que ganhou uma placa indicativa de “Rua da Diversidade” – foi reconhecida pela Prefeitura como ponto turístico LGBTI. 

O Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio (Alerj), recebeu uma celebração pública no mesmo dia. O evento, organizado pelo deputado estadual Carlos Minc (PSB), presidente da Comissão de Combate às Discriminações, foi lembrado pela drag queen Desirée cantando a música “Believe” da cantora Cher, diva do universo LGBTI.

Com 46 anos, 22 de carreira trabalhando nas principais casas noturnas do Rio, Desirée Cher, que mora na comunidade do Jacarezinho, afirma que, pela primeira vez, está sendo “massacrada” pelos “bolsonaros”, por conta da apresentação na Alerj. “Teve até evangélico me defendendo”, alegou. “Onde eu moro, as pessoas me recebem com muito respeito. Eu saio o tempo todo para trabalhar e nunca fui agredida, essa é a primeira vez”, contou. “Na Alerj tem culto evangélico, culto africano, roda de pagode, mas não pode ter drag queen cantando. Somos seres humanos comuns, nós pagamos impostos. Queremos viver na sociedade sem privilégio, mas sendo respeitados”, pediu a artista, que também foi estrela da parada que ocorreu ontem em Madureira. “Essa parada é, principalmente, para tomarmos consciência de que precisamos votar, e precisamos saber em quem vamos votar como nosso representante”, exclamou a drag. 

Seguindo os mesmos passos de Loren e Desirée na política, Debora Maria Pereira, de 19 anos, carrega uma bandeira com as cores do arco-íris, símbolo do movimento, e com o rosto de Marielle Franco, vereadora negra, favelada e lésbica assassinada no dia 14 de março. Para ela, Marielle representa todos esses espaços ao mesmo tempo, e não deve ser esquecida. “A Marielle representa um todo. A gente faz de tudo para ela viver presente para sempre. Nós já lutávamos antes, por ela, a gente luta ainda mais”, defendeu a estudante de Campo Grande.

Debora foi ao ato acompanhada da namorada Aline, de 20 anos, também estudante. Ela conta que das mudanças que ocorreram depois que assumiu para a sociedade que era lésbica, no ano passado, o distanciamento de seu pai foi a pior delas. “Tirando a relação com meus pais, eu sou uma pessoa mais feliz. Se meu pai me aceitasse, eu seria completa. Sinto a falta dele”, lamentou.

Já José Alberto Miranda, ex-camelô, prefere viver sozinho. O morador de Ninópolis e frequentador assíduo da escola de samba Beija Flor tem 61 anos e defende que “todos são filhos de Deus”, independentemente da orientação sexual e identidade de gênero. Ele afirma que já foi agredido física e verbalmente, e que ainda há muito para ser feito. Mas “os tempos melhoraram”, ponderou. “Se você é alguém na vida é mais fácil não ser, ou ser menos, recriminado. Agora, se você é homem, gay e pobre, será recriminado sempre”, lamentou. 

José vestia uma camisa com a bandeira do Brasil em paetê e com muito brilho. Torcedor da seleção brasileira e amante de futebol, ele não escondeu que tem acompanhado a Copa do Mundo que acontece este ano na Rússia. Mas lembrou que no quesito de direitos assegurados para a comunidade LGBTI, o Brasil é campeão. “Nessa política, o Brasil ganha de 1 a 0 da Rússia. Eu torço para a nossa seleção”, exclamou. 

O evento reuniu representantes dos movimentos sociais, ativistas LGBTI e ofereceu serviços como vacinação contra hepatite B e tétano, teste de HIV e distribuição de materiais de prevenção as ISTs (Infecções sexualmente transmissíveis). A segurança dos participantes foi garantida por 260 homens do Batalhão da Polícia Militar.