Moradores da Urca estão em alerta com Projeto de Estruturação Urbana do bairro

Em 2001, o musicólogo Ricardo Cravo Albin, morador da Urca desde 1989 em um prédio da sua família, foi visitado por uma construtora, cujo nome prefere não mencionar, oferecendo US$ 2 milhões pelo imóvel. “Não só recusei a oferta, como avisei à família que iria doar todos os bens ao Instituto Ricardo Cravo Albin, com sede no imóvel, criado naquele mesmo ano”, lembra. “O que há de pior é alterar os gabaritos, como começou a ser feito na orla carioca pelo Flamengo, Botafogo, Copacabana e, mais tarde, em Ipanema e Leblon. Quando presidi o Conselho Estadual de Cultura tinha um plano de processar todos os responsáveis por modificações nos gabaritos”, fulmina Albin, que se arrepia só em ouvir falar em qualquer modificação no Projeto de Estruturação Urbana (PEU) do bairro, já confirmada pela secretaria municipal de Urbanismo ao JB. 

Embora a prefeitura informe que não haverá modificações no bairro em relação ao gabarito, taxa de ocupação e índice de construção, os moradores se preocupam com qualquer mudança, já que o PEU, criado há 40 anos, tem sido um instrumento fundamental para manter o equilíbrio e a sustentabilidade da Urca. 

Para o arquiteto Jorge Jauregui, morador do bairro há 30 anos, não há dúvida de que a qualidade de vida da Urca tem sido preservada nesses 40 anos graças ao PEU e está claro para todos que o bairro não tem para onde crescer. “A Urca não precisa de nenhuma nova lei e não há significação em mencionar ruas comerciais, inexistentes aqui. O Rio é uma cidade muito desigual, muito mais importante é urbanizar as favelas, realmente o que precisa ser feito para reduzir essas desigualdades”, diagnostica. 

Periferias

Jauregui observa ainda que a prefeitura deveria se preocupar mais em qualificar todas as periferias do Rio de Janeiro. “É preciso introduzir nessas localidades equipamentos de prestígio para que essas populações possam viver tão bem quanto o resto da cidade. É isso que tem de ser feito, e não mudar algo que não precisa ser alterado”, frisa. 

Outra que vê com temor a alteração é a arquiteta Paula Albernaz, moradora do bairro há 40 anos. “Um dos diferenciais da Urca é que ela só tem uma saída, o que ajuda a dificultar o adensamento. Independente do Pão de Açúcar, o bairro se tornou turístico com o tombamento da amurada. Vem muita gente de fora apreciar a paisagem da Baía da Guanabara nos bares à beira mar, um programa muito agradável, que chega a congestionar o bairro nos fins de semana”, descreve. “Mudanças na legislação podem modificar as características do bairro e não há nenhuma necessidade de se mexer num time que está ganhando. A paisagem é o que temos de mais valioso na cidade e não podemos colocá-la em risco”, afirma a arquiteta.