Painel na Praia de Botafogo prega a paz e vira atração

Sereia negra com pomba branca na mão leva faixa com a mensagem: “Olhai por nós”

Quem passou ontem à tarde pela Praia de Botafogo pôde se deparar com um painel de 36 metros de altura por 12 metros de largura na parede lateral de um prédio. Virou atração porque os artistas, sob supervisão da autora da pintura Rafaela Mon, davam os retoques finais em dois andaimes. Motoristas e pedestres desviavam o olhar para uma sereia negra com uma pomba branca na mão levando uma faixa com uma mensagem escrita: “Olhai por nós”. Na viagem de Rafaela, a súplica é para ser levada ao Cristo Redentor, ali perto, no Corcovado. O aparente delírio, porém, foi influenciado por algo bem concreto e, infelizmente, comum nos centros urbanos. “Sou de Minas Gerais, estou no Rio de Janeiro há 13 anos, e, até abril deste ano, nunca havia presenciado uma cena de tamanha violência”, disse ela, em referência à noite em que estava num bar, na Rua Arnaldo Quintela, em Botafogo, quando chegaram cinco homens num carro roubado perseguido pela polícia e, após intenso tiroteio, um deles acabou morto. “Eu estava na calçada do bar com o grupo. Nós tivemos de entrar e nos abaixar. Foi desesperador”. 

O quadro descrito pela mineira tem cores fortes, mas a artista visual, contudo, também retrata algo mais leve. Lembra o dia em que começou a traçar a figura da sereia, que ela espera que seja interpreta da como Iemanjá, já que ali em frente fica a bela Enseada de Botafogo. “Mas também gosto da ideia de cada pessoa dar um significado diferente”, diz Rafaela. 

Ela fez os riscos do mural em seu iPad. À Praia de Botafogo, levou um projetor e, à noite, refletiu a imagem na parede lateral do edifício. Chamou muito a atenção dos pedestres no dia. E começou a dar cor à sereia, ou melhor, a Iemanjá. Por exigência de lei, teve de fazer curso sobre como se equilibrar em andaimes, assim como os artistas que ela convocou à empreitada. Passou também pelo crivo do condomínio do prédio, que, por votação, aprovou seu desenho. Prefere ser chamada de artista visual, porque diz que não faz só arte de rua. Mas ontem, sentada num sofá à venda na calçada para descansar um pouco do trabalho, parecia, com bom humor, se contradizer.