Impressões de fotógrafa e filósofa na Providência revelam o poder da arte na integração

Ana Carla Ferreira dos Santos fez imagens em evento dedicado a Machado de Assis, cria da favela

As impressões da fotógrafa e professora de Filosofia Ana Carla Ferreira dos Santos, numa visita ao Morro da Providência, no dia do evento Galeria Providência, dedicado ao escritor Machado de Assis, ilustre cria da favela, revelam o poder da arte na integração do morro com a cidade e na valorização de comunidades que, apesar de toda a sorte de violência que sofrem cotidianamente, reafirmam-se no dia a dia como polo de produção e resistência cultural.

A Galeria Providência é aberta, fica no Morro da Providência e é acessível por vários lados. No sábado 2 de junho,  o evento teve um dia marcante, em que pôde mostrar seu potencial de força e capacidade de não esmorecer. Sim, porque na véspera a violência falou mais alto por lá, e os moradores perderam sua tranquilidade. Muitos ficaram sem seu direito de ir e vir; algumas vias ficaram fechadas; e a favela ficou por muito tempo na escuridão, impossibilitando que muitos voltassem para casa. 

Felizmente, o Morro da Providência tem luz própria, como traduz uma frase de suas paredes: “Quem tem fé não se tranca em casa”. O transtorno do dia anterior não contaminou o que havia sido planejado e no dia seguinte a paz reinou. Não observei nenhum armamento fora das mãos de policiais. Vi as marcas pelas paredes, mas não dá para dizer de quando eram, só quem vive por lá para saber. 

Seus moradores acolheram um grupo que iniciou seu city tour por trás da Central do Brasil, de onde, aos poucos, se descortinavam algumas entradas da favela,  sob a indicação do guia Cosme Felippsen, que nos enchia de informações. Por outro lado, a guia Nina Chini Gani nos desvendava, dentro do Rolê das Artes, os grafites pelo caminho, fornecendo, com muita propriedade, dados para além da beleza: tipos de traços, artistas, técnicas e materiais empregados.

Numa das entradas da favela, avistamos o local principal, com as paredes onde seriam feitos os grafites. A escadaria que as margeava estava recém-pintada e, debaixo, víamos um teto de céu azul moldando tudo — uma imagem linda. Nós nos aproximamos dos artistas que já tinham iniciado sua arte, desde o início da manhã, os cumprimentamos e voltamos ao tour. 

Seguimos até a Rua do Livramento, onde adentramos a favela e começamos a subir o morro. O local não foi escolhido ao acaso. Nele podem-se ver casas que fogem a ideia mais comum de favela. O guia Cosme nos perguntou sobre o nosso entendimento de favela, houve participação de todos. O teleférico construído com dinheiro dos nossos impostos está sem funcionar há mais de dois anos. Ajudaria muito no cotidiano das pessoas se funcionasse. Não é fácil subir com tudo nas costas. A constatação de que o único braço do estado presente é a segurança pública é triste: não tem uma escola, um posto de saúde, uma creche.

Andamos grande parte do morro recebendo muitas informações históricas e de situações do cotidiano dos moradores, vendo casas, barracos, igrejas, terreiros, a ruína da fachada da Casa de Machado de Assis e a Casa Amarela — aquela da lua crescente, que vemos de vários pontos do Centro do Rio. Percorremos as vielas e apreciamos uma vista privilegiada do Rio de Janeiro, por vários ângulos. Fomos contemplados por uma performance do guia Cosme com um pandeiro e uma pequena encenação da marcação de casas a  serem demolidas antes do início da construção do teleférico. E tome-lhe ladeiras e escadarias por todo o percurso. 

O contexto do tour era, de um lado, olhares curiosos dos que queriam conhecer a Providência e, do outro, olhares cativantes e felizes de quem se sentia visitado ao nos ver andando pelas ruas, becos e vielas. Muita chance de termos os ajudado só com nossa presença, em função dos acontecimentos da véspera. Funcionou como um voto de confiança, de que ali tem muito a se ver — a recepção foi muito sincera. Não sei se os policiais sabiam da nossa vinda, mas os cumprimentos foram vários durante o trajeto e olhares curiosos também, sensação de segurança o tempo todo. 

A atipicidade do tour neste dia foi da inclusão do Rolê das Artes integrado com a execução do trabalho dos grafiteiros. O grafite tinha a temática de Machado de Assis. Não se tratava apenas de ver o grafite que já estava pronto. Dessa vez, o efeito estava ampliado, dava para ver a integração. Os moradores passavam, elogiavam o trabalho, tiravam foto, se sentavam e olhavam um pouco, e enalteciam o talento dos artistas.  O efeito do grafite nos que moram na Providência é bem mais profundo: envolve valorização do ambiente e das pessoas que lá vivem, mexe com a autoestima ao constatar pessoas de fora se dedicando a eles, mesmo que indiretamente.

O espírito de comunidade dos moradores se mostrou presente em forma de retribuição ao oferecer de forma espontânea: água, suco, refrigerante, deixar utilizar banheiro, carregar celular. O lado intangível também se demonstrou nos sorrisos e cumprimentos dos moradores por nos verem apreciando o local onde vivem.

Almoçamos no Bar da Jura, com cardápio variado, tempero delicioso e muita fartura no prato, sem falar no carisma da Dona Jura, cheia de atenções. Como se faltasse alguma coisa tem-se o visual lindo do mirante que fica de frente ao bar, bem na altura de uma das estações do teleférico. Sem falar num lindo grafite que foi feito para Marielle Franco em frente ao lugar onde ela se sentou quando visitou o Morro da Providência. 

O evento ainda teve aula aberta sobre Machado de Assis, que nasceu lá, e a Providência; música com DJ ao vivo e o Sarau do Alemão; o Erik da Maré; performance do Cosme da Providência; e dança do passinho com o Igor Imperador, da Providência. Exemplo de integração das comunidades através da arte. Não tenho dúvidas do orgulho de Machado de Assis por esse projeto. Saí de lá com um sentimento que tem na frase de um funk antigo: “A Providência é nós”. 

*fotógrafa e professora de Filoso?a