Intervenção muda tática para aumentar sensação de segurança, mas deve solução para caso Marielle

Mais de um mês após a decretação da intervenção federal, o Comando Militar do Leste, que até então vinha realizando ações pontuais, mudou de estratégia. Para dar mais visibilidade às ações, os militares foram colocados em pontos estratégicos, às vistas da população, no Centro da cidade, na Praia de Botafogo e na orla de Copacabana. Além disso, as Forças Armadas realizaram a primeira megaoperação do período, com emprego de quase 4 mil homens no Complexo do Lins, na Zona Norte. A alteração tática, para especialistas, está atrelada à tentativa de aumentar a sensação de segurança da população que continua testemunhando crimes violentos, como a chacina de cinco jovens em Maricá e de oito mortos na Rocinha entre domingo e segunda-feira. Além disso, ajuda a desviar as atenções em torno das  investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). O crime, que também culminou na morte do motorista Anderson Gomes, aconteceu há duas semanas, e mesmo diante da promessa feita  há nove dias pelo interventor, o general Walter Braga Netto, de que “em breve” seria elucidado, com os responsáveis identificados e presos, ainda não se chegou à solução. 

Para o sociólogo Marcelo Burgos, do Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica (PUC), a ida das Forças Armadas às ruas é uma resposta às pressões sofridas pela cúpula da intervenção no Rio para a “apresentação de respostas mais palpáveis no sentido de aumentar a sensação de segurança”: “Essa presença representa uma inflexão na linha que vinha sendo adotada. Isso possivelmente ocorre em função das demonstrações de setores da PM, que não pretendem se subordinar ao comando do Exército. Isso ficou muito claro no que se poderia chamar de chacina da Rocinha, onde o que ocorreu traz todos os indícios de vingança, praticada por policiais militares, pela morte de um policial da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) dias antes”. 

Ainda de acordo com Burgos,  as ações violentas atribuídas à milícia nos últimos dias desafiam abertamente as autoridades militares responsáveis pela intervenção, por estarem sem respostas. “É possível que o assassinato da (vereadora) Marielle faça parte dessa mesma espiral de retaliação em face da intervenção.  O fato é que as evidências que temos até aqui nos fazem crer que a intervenção está encontrando resistências muito fortes para avançar na agenda fundamental de maior controle sobre a polícia. E o custo disso é o aumento exponencial da letalidade, sobretudo nas áreas periféricas da capital e da Região Metropolitana”. 

Para o também sociólogo José Cláudio Souza Alvez,  a intervenção tem uma agenda midiática e, só por isso, os policiais estão na rua. “Em vez de estar preocupada com a mídia, a intervenção deveria se ater à grande questão, que é a do crime organizado. Ou seja, o tráfico de drogas e as milícias estão estruturados a partir do comprometimento do próprio Estado. Parte do aparato policial está associado ao crime organizado. Isso deveria ser prioridade”, diz o professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).  

Para leitores do site “JB”, a intervenção também ainda não mostrou a que veio. Em enquete realizada às vésperas da intervenção completar um mês, 83% dos internautas não sentiram diferença na segurança do estado. O gabinete da intervenção federal, no entanto, emitiu nota ontem dizendo que as ações nesta terça-feira não significaram uma mudança estratégica. 

Após sete horas de operação no Lins, 24 pessoas foram presas (16 tinham mandado de prisão e oito teriam sido flagradas no tráfico). Foram apreendidos cerca de 10kg de maconha, quantidade de cocaína e crack não especificada, duas pistolas 9mm, um revolver 32mm, munição, oito radiocomunicadores, dez carros e 11 motos usados pelos traficantes. Numa inspeção em Bangu 3, onde estão presos chefes   de facções criminosas não transferidos para presídios federais, foram apreendidos dezenas de ventiladores e um celular. Segundo agentes da penitenciária, os presos destruíram seus celulares e jogaram as peças no esgoto para escapar da revista. 

Temer assina MP de R$1,2 bi

 O presidente Michel Temer assinou, na tarde de ontem, Medida Provisória que libera R$ 1,2 bilhão para a intervenção no Rio, em vez do R$ 1 bilhão anteriormente anunciado. A verba poderá ser usada na compra de equipamentos e infraestrutura logística, como armas e viaturas para as polícias civil e militar. O dinheiro não pode custear o passivo de salários em atraso, nem servir para a contratação de concursados. (Com Agência Brasil e Estadão Conteúdo)