Homenagem a Edson Luís cobra solução de crime contra Marielle Franco

Uma manifestação para lembrar a morte da vereadora do PSOL Marielle Franco está marcada para hoje, a partir de 15h, na Candelária. O dia não é aleatório e marca, também, os 50 anos do assassinato do estudante secundarista Edson Luís, durante a ditadura militar — um crime que permaneceu impune. No cartaz que anuncia o evento, os dois nomes são citados: “Por Edson Luís e Marielle”. 

Faz duas semanas do atentado contra Marielle e o motorista dela, Anderson Gomes, e até agora as investigações não avançaram, embora o interventor, o general Braga Netto, tenha afirmado há nove dias que “em breve” o caso seria solucionado, com a identificação e a prisão dos responsáveis pelo atentado. O vereador Tarcísio Motta ressalta  que o assassinato de Marielle Franco foi político. Para ele, as investigações devem levar isso em conta. 

“Há duas semanas, Marielle Franco e Anderson Gomes perderam suas vidas. É muito importante frisar que foram vítimas de um crime político. Até hoje, seguimos sem informações sobre quem mandou matar Marielle e o que motivou esse atentado à democracia. O PSOL continua acompanhando e cobrando que as investigações avancem com a urgência e a seriedade necessárias a esse episódio tão triste da nossa história”. 

É fato que, da mesma forma que o estudante morto, Marielle já se transformou em um forte símbolo. As manifestações internacionais confirmam isso. 

Em universidades do Rio, cartazes são vistos com os versos da canção que Milton Nascimento e Ronaldo Bastos fizeram em homenagem a Edson Luís, m 1968. No texto do cartaz, o alerta sobre as diversas mortes que têm ocorrido no Rio: “Hoje, esses versos também representam as tantas mortes na cidade”. Mortes que Marielle estava denunciando dias antes de seu assassinato. Nascida no Complexo da Maré, a vereadora não se conformava com a forma como a polícia militar entra nas favelas. Bem semelhante à ação policial no restaurante Calabouço, onde estava Edson Luís ao ser baleado pela polícia.

Memórias de um símbolo

 Os versos da canção “Menino”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, foram escritos um dia após o assassinato do estudante Edson Luís Lima Souto, então com 18 anos, baleado pela polícia na manifestação no restaurante Calabouço, no Centro. O movimento estudantil à época passou a crescer numa proporção exponencial, desafiando cada vez mais a ditadura militar. O cinquentenário do assassinato de Edson Luís traz força à poesia do compositor Ronaldo Bastos, letrista da composição. O vereador Tarcício Motta a declamou na Câmara Municipal, fazendo um paralelo com a morte de Marielle Franco. “De fato, Edson e Marielle têm algo muito em comum”, diz Ronaldo Bastos. “A morte de Edson foi tão chocante que a música estava pronta no dia seguinte àquela estúpida ação policial”, conta. De fato, os primeiros versos parecem ter sido feitos para os dois casos: “Quem cala sobre seu corpo consente na sua morte” — frase que expõe o objetivo de Bastos e Milton de fazer da morte de Edson algo simbólico na luta contra o regime de exceção daquele período. 

O documentarista Sílvio Tendler conta que Milton Nascimento pediu que incluísse a música no documentário “Jango”, de 1984, no qual a morte de Edson é retratada no contexto da deposição de João Goulart da Presidência da República pelo regime militar. “A canção trouxe uma dramaticidade intensa às imagens do enterro de Edson Luís”. 

O cineasta conta que Milton estava no enterro de Edson Luís com um cartaz em que se lia “Artistas contra a repressão”. “Depois daquele enterro, entrei para o movimento estudantil. Larguei o colégio particular em que estudava e me politizei bastante, o que influenciou muito o meu trabalho. Houve um aumento grande de jovens dispostos a lutar contra a ditadura”, afirma Tendler. 

O grito dos estudantes realmente ecoou. Daquele 28 de março surgiram manifestações gigantes, como a histórica “Passeata dos 100 mil”, no dia 26 de junho, com bandeiras como a volta da democracia e a luta contra a censura. Outros motivos não faltavam para que milhares de pessoas ganhassem as ruas. A repressão policial trazia à tona a total ausência da democracia. A missa de sétimo dia de Edson Luís, por sinal, foi um exemplo claro disso. No dia 4 de abril, na Candelária, no Centro do Rio, a cavalaria da Polícia Militar cercou a igreja e atacou as pessoas que saíam da celebração a golpes de sabre. Num atitude corajosa, os clérigos deram as mãos e formaram um corredor para que o grupo chegasse à Avenida Rio Branco.