Cavendish: desembargador que concedeu prisão domiciliar se declara suspeito

MPF apontou conflitos de interesse e laços de amizade de magistrado com advogados de empresário

O desembargador Antonio Ivan Athié, que converteu a prisão preventiva de Fernando Cavendish, Carlinhos Cachoeira e mais três empresários detidos na Operação Saqueador para prisão domiciliar, se declarou suspeito para continuar atuando no caso nesta terça-feira (5).

Nesta terça-feira, o Ministério Público Federal (MPF) afirmou que iria recorrer da decisão de Athié, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, de conceder a prisão domiciliar, questionando a relação do desembargador com a defesa de Cavendish.

O escritório de Técio Lins e Silva defendeu Ivan Athié em 2004, quando o desembargador foi acusado de falsidade ideológica no Superior Tribunal de Justiça (STJ). A acusação foi arquivada em 2008 pelo ministro Felix Fischer, que alegou que o desembargador teve os sigilos fiscal, bancário e telefônico quebrados e nada de irregular foi encontrado. O escritório de Lins e Silva defendeu Athié também em recursos no Supremo Tribunal Federal.

A procuradora regional da República Mônica de Ré, representante do MPF nos autos, disse que há inclusive demonstração de laços de amizade entre o desembargador e o advogado que representa Cavendish.

“Sem pretender fazer juízo de mérito sobre o julgamento realizado, não há como se recusar a constatação de que as circunstâncias descritas retiram do magistrado o distanciamento e a imparcialidade necessários à apreciação desse processo, sobretudo pelo fato de Fernando Antônio Cavendish Soares constar como parte”, disse a procuradora.

Na semana passada, o procurador-chefe do procuradoria Regional da República, José Augusto Vagos, que atua junto ao TRF-2, disse que a reversão da prisão preventiva determinada pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, é um "desprestígio" com os órgãos que "trabalharam duro" na operação. 

"Vamos recorrer para tentar reverter essa decisão, que beira o abolicionismo penal, prisões domiciliares sem análise mais profunda e cuidadosa, num contexto de desvios de quase 400 milhões, soltura relâmpago. É um desprestígio aos órgãos de persecussão que trabalharam duro para essa operação, gasto enorme de tempo e dinheiro para, sem maiores considerações e aprofundamentos, concederem-se prisões domiciliares em série", afirmou Vagos.

>>Fernando Cavendish e Carlinhos Cachoeira têm cabelos raspados em Bangu 8

>>Defesa pede ao STF prisão domiciliar para Cachoeira