Memória da Chacina da Candelária: parentes dizem que situação do menor não mudou

Em poucas palavras, Patricia Oliveira, irmã de um dos sobreviventes da Chacina da Candelária, define a situação do menor infrator no país nestes últimos anos: "nada mudou desde o tempo da chacina". Ela e outros familiares de vítimas de violência participam nesta quinta-feira (23/7) da caminhada "Em defesa da vida", em memória dos 22 anos da tragédia.

Patricia conta que seu irmão, Wagner dos Santos, ainda convive com as sequelas de dois atentados, entra elas uma doença provocada por chumbo e que não tem cura. Única testemunha do crime cometido por policiais militares, Wagner trabalha como serralheiro na Suiça, onde também recebe tratamento oftalmológico e para surdez, outras consequências dos tiros.

Após sobreviver à chacina da Candelária, Wagner foi alvo de mais um atentado em setembro de 1994, quando foi atingido por mais quatro tiros e sobreviveu. Foi neste ataque que ele perdeu a visão e ficou com problemas auditivos. O Ministério Público o colocou no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas e em depoimento, reconheceu quatro dos assassinos, novamente policiais militares. 

"Aquele crime deveria ter servido de exemplo para se tratar melhor as causas dos menores, mas na verdade tudo continua a mesma coisa até hoje ", afirma Patricia. Ela observa um maior crescimento de presídios nos últimos anos, enquanto as autoridades deveriam implementar políticas públicas voltadas para esta população, na sua opinião.

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Fundadora do movimento Mães de Maio, Débora Maria da Silva também compartilha da mesma opinião e crítica a PEC da redução da maioridade penal, aprovada este mês na Câmara dos Deputados. "Este projeto é um sequestro da democracia. Um verdadeiro absurdo", comenta ela. Para Débora, a atuação da Polícia Militar no Rio é "partidarizada" e atende aos interesses de uma elite política, que vê como solução para o menor infrator "apenas as grades das prisões". "E com isso os resultados têm sido as covas nos cemitérios. O Congresso, as autoridades devem pensar em políticas para proteger e socioeducar estes menores", avalia.

Mônica Cunha, dos movimentos Moleque - Mães pelos Direitos dos Adolescentes no Sistema Socioeducativo - e Candelária, acredita que o problema do menor infrator está longe de ser resolvido se não houver uma obediência ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Ela acompanhou de perto a rotina de um centro socioeducativo no Rio, quando teve um filho recolhido neste local, e afirma que a vida dos menores ali dentro é "um verdadeiro horror e barbárie". As regras destes centros estão defasadas e eles não recebem a mínima orientação, pelo contrário, convivem com o crime", conta ela. O filho de Mônica, Rafael, teve quatro passagens pelo sistema de acolhimento de menores infratores, entre 15 e 17 anos, e foi assassinado aos 20 anos por um policial militar, após sair do sistema socioeducativo.