Caos na Uerj: vídeo mostra situação degradante da universidade

Banheiros imundos são o retrato do abandono na instituição de ensino

A situação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) só pode ser definida como caótica. Uma aluna enviou para o Jornal do Brasil um vídeo que mostra a situação dos banheiros da universidade: papéis e mais papéis higiênicos sujos deixados há dias ao lado da privada. O sentimento corrente entre os alunos é de frustração, após um vestibular tão concorrido. Os professores, alunos e funcionários protestaram na última quinta-feira (21) contra a situação da Uerj na frente do Palácio da Guanabara.

"É péssimo estudar numa faculdade que não te dá a estrutura necessária para uma boa formação", disse a aluna Maria Gabriela Monteiro. "Por exemplo, quase não temos a oportunidade de ter aulas praticas pois são poucos os laboratórios que possuem computadores. Na verdade, no meu andar só tem um. Para apresentar trabalho sempre é um problema, pois os aparelhos de televisão ou data show sempre estão com algum defeito!"

A aluna de nutrição da Mikaela Guerreiro explicou que, por conta de atrasos salariais, os funcionários terceirizados da universidade não têm trabalhado. "Os funcionários terceirizados estão com os seus salários atrasados e o trabalho deles é essencial para a nosso dia a dia na faculdade. A limpeza dos banheiros, por exemplo, é algo que implica muito na nossa qualidade de vida lá dentro, e no momento, a limpeza está precária." 

Isabela Barroso, também da Nutrição, afirmou que não são somente os funcionários da limpeza que estão sem receber, mas os bolsistas de estágios, os cotistas e os residentes do Hupe também têm recebido as suas bolsas atrasadas. "Não acho justo os funcionários irem trabalhar se não estão recebendo, afinal eles também têm contas para pagar, família para sustentar", destacou.

De acordo com Isabela, a situação no banheiro, conforme mostrada no vídeo enviado, tem sido frequente no dia a dia, acontecendo por vezes de deixarem de utilizar por conta do estado degradante. "O banheiro naquele estado tem sido frequente e comum, infelizmente. Muitas vezes a gente deixa de ir no banheiro pelo estado crítico que ele se encontra, porque tem vezes que realmente não tem como ir, mesmo estando com muita vontade. Conviver com essa situação, a do banheiro especificamente, é bem complicado. Porque as aulas não param, a gente tem que ir, mas também temos as nossas necessidades", destacou.

A aluna de nutrição Larissa Maia destacou que não é somente estudar que fica difícil no estado atual de caos. Para ela se manter o dia inteiro na universidade, também é complicado. "Difícil não é só estudar nessas condições, mas para nós que ficamos lá o dia todo é ruim para comer, porque fica cheio de mosquito rondando. E depois disso temos que escovar os dentes naquele nojo de banheiro entupido e com torneiras quebradas", contou.

No protesto da última quinta-feira, os alunos, professores e funcionários reivindicavam mais verbas para a universidade, reajuste nos salários de professores e funcionários, regularização no pagamento dos trabalhadores terceirizados de segurança e limpeza e também para pagamento das bolsas de R$ 400 dos alunos cotista, que representam 50% dos estudantes. Por causa do protesto, o Palácio Guanabara foi cercado por grades de proteção e grande efetivo de policial militares.

“Queremos a continuidade das verbas para a universidade. Precisamos do orçamento integral. Cada unidade recebe, no primeiro semestre, quatro parcelas para custeio. Mas neste semestre, recebemos só duas. O orçamento foi cortado pela metade pelo governo do estado. Também queremos reajuste salarial, pois estamos há 12 anos sem reajuste, além da incorporação de nossa dedicação exclusiva na aposentadoria”, explicou a professora Cleier Marconsin, da Faculdade de Serviço Social.

Além da situação precária dos banheiros e dos outros serviços terceirizados, algumas matérias também estão sem professores. O aluno de engenharia elétrica Luccas Davidson admite que todo esse cenário causa uma sensação de descaso entre os alunos. " Os alunos se sentem preocupados e revoltados às vésperas de mais uma greve, tendo que atrasar conclusão do curso e se complicando ao não ver possibilidade de arrumar um emprego sem diploma", afirmou.

O caso da Uerj já vem de longa data. No início do ano, o reitor Ricardo Vieralves de Castro  anunciou através de um comunicado oficial o adiamento do início do ano letivo, alegando que existiam graves consequências por conta da crise econômica que atravessava o estado do Rio de Janeiro.

"Pensando bem, acho que de tudo a situação das salas de aula é o menos pior", disse Larissa Maia. "O complicado mesmo são as coisas básicas, como as nossas condições de higiene básica. É aí que fica muito difícil mesmo", destacou.

O governador do Rio, Luis Fernando Pezão, declarou que iria normalizar a situação dos terceirizados no dia 15 deste mês. "Dentro da Uerj e do Colégio de Aplicação, já quitamos 93% com uma empresa e 96% com a outra. A gente está fazendo o dever de casa. Quero chegar no mês de junho com 100% liberado", disse o governador.

A sensação que fica para os alunos é de frustração. Após se dedicarem e estudarem para entrar em uma universidade pública com educação de qualidade, conforme dito por Isabela Barroso, chegar lá dentro e se deparar com a situação caótica não é animador.

"Prestar um vestibular concorrido e encontrar uma faculdade nessas condições causa um sentimento de frustração. Vemos diariamente o descaso, seja com nossa formação ou nossa segurança. São vários os alunos que já foram assaltados nos pontos de ônibus em frente à Uerj. Acho um absurdo não colocarem policiamento por ali. Enfim, é um descaso", finalizou Maria Gabriela. A aluna Mikaela Guerreiro completou que, apesar da decepção existir, a possibilidade de mudança existe, no entanto, somente com o engajamento por parte de todos.

*Do Programa de Estágio do JB