Trajetória de Luiz Paulo Horta no JB é marcada por grandes reportagens

O acadêmico e religioso, morto no último sábado, trabalhou entre 1964 e 1990 para o jornal

Luiz Paulo Horta, morto no último sábado aos 69 anos, meia década depois de ter se tornado imortal pela Academia Brasileira de Letras (ABL), deixou um importante legado de obras jornalísticas e literárias. Por 26 anos de sua vida, emprestou um pouco do vasto conhecimento em artes, religião e política às páginas do JORNAL DO BRASIL. Em 2000, ganhou o Prêmio Padre Ávila de Ética no Jornalismo e, em 2010, a Medalha do Inconfidente do Governo de Minas Gerais. Na ABL, ocupou a cadeira número 23, fundada por Machado de Assis. Publicou livros sobre música e teologia, e deixou alguns outros por fazer. Tratamos, aqui, de uma vida dedicada à produção de conhecimento e celebração da cultura. Familiares e amigos o apontavam como pessoa simples, de rara sensibilidade.

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Nascido no Rio de Janeiro em 14 de agosto de 1943, chegou a estudar Direito, mas abandonou o curso e, no início dos anos 1960, colaborou com o Correio da Manhã. Em 1964, entrou para a equipe do JB, da qual fez parte até os anos 1990. Brilhante entrevistador, ajudou a preencher as páginas deste jornal com declarações de personalidades que influenciaram a história brasileira. Uma figura importante que conversou com Horta para o JB, em 1980, foi César Guerra Peixe, um dos maiores ícones da música popular brasileira, que se destacou por aproximar a música clássica a temas folclóricos. Na ocasião, registrada na imagem ao lado, Guerra Peixe revelava informações sobre sua vida pessoal a Horta, com detalhes, por exemplo, sobre a infância influenciada pelo pai português multi-instrumentista, que tocava da cítara à sanfona. As entrevistas de Horta, todavia, não se contentavam apenas em extrair detalhes da vida pessoal e profissional do entrevistado. Preocupava-se em promover debates e analisar tendências, demonstrando sempre domínio da área tratada.

Em 2007, foi lançado o livro Guerra Peixe: um músico brasileiro, com textos de pessoas selecionadas pelo próprio músico antes de morrer, em 1983. Horta foi um dos escolhidos, o que traduz sua importância para a divulgação e análise da música brasileira. O jornalista publicou ainda Villa-Lobos: uma introdução e Caderno de música, entre outros.

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Horta é reconhecido mundialmente pela sua ligação e domínio da música, mas, no JORNAL DO BRASIL, foi também responsável por reportagens que ajudaram a esclarecer os brasileiros sobre as problemáticas globais. Uma seleção delas ajudaria a contar parte da história recente do Brasil e do mundo. Em novembro de 1974, matéria assinada por ele na página seis, com o título “Oriente Médio: uma história de guerras”, abordava as quatro guerras ocorridas na região em 25 anos. O texto oferecia um panorama de cada uma delas e apresentava um perfil de Yasser Arafat, fundador do Al-Fatah, na época com mais de 20 mil membros e 150 milhões de dólares à disposição.

“Quatro guerras, em 25 anos, que parecem compor um ciclo completo, dos ásperos combatentes de 48 à marcha irresistível dos tanques de Dayan, em 1956, daí para à guerra relâmpago de 1967 e à hora da verdade em 1973, em que os adversários se viram de novo frente a frente, disputando o terreno, a batalha aérea e a força dos mísseis", resumia Horta.

A religião foi outro assunto que ele se dedicou. Em "Ativistas e Ocultistas", de 1980, na imagem abaixo, sugeria um mergulho nos tratados teológicos. Horta foi conselheiro do Centro Dom Vital, membro da Comissão Cultural da Arquidiocese do Rio e liderou um grupo de estudos bíblicos. Um de seus livros, “A Bíblia: Um diário de leitura”, de 2011, teve quatro mil exemplares vendidos em um mês. O envolvimento dele com a religião chegou a outros continentes. Uma semana antes de morrer, deu entrevista ao francês Georges Bourély para filme sobre o Papa Francisco. Chegou a comentar que pretendia escrever um livro sobre a força do catolicismo na cultura brasileira.

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Outro livro lançado pelo jornalista foi “À procura de um cânone”, de 2009, dividido em seis partes – Perfis, Éticas, Políticas, Gente da música, O outro lado e Epílogos. Além de questões relativas à fé e à Igreja católica no século XXI, falava do choque entre Oriente e Ocidente e da política brasileira.

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Em “Abismo cultural”, de 1989, ao lado, Horta trata justamente da relação entre Oriente e Ocidente. De onde saiu, inclusive, uma filosofia de vida celebrada por ele durante a posse na ABL: "Mas coração não é sinônimo de sentimentalismo. É o mais alto órgão do conhecimento, como gostam de explicar algumas doutrinas orientais. É uma intuição que vai muito além da razão; que é capaz, por exemplo, de perceber o outro, a fantástica realidade do outro, e, em condições favoráveis, estabelecer um verdadeiro encontro de pessoas". A importância da cultura e ciência orientais, ainda pouco reconhecidas e respeitadas ainda hoje, estava presente naquele texto do JB: “Muitos antes de Bacon, os descendentes de Maomé adotaram o enfoque mais experimental nas ciências. Tornaram-se grandes astrônomos. Rezar em direção à Meca exigia uma ciência precisa da orientação do espaço”.

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A abordagem de processos políticos e econômicos nas reportagens de Horta ia além das editorias de Política, chegava à editoria de Cultura. Uma das grandes críticas a esta editoria atualmente, pelos acadêmicos, é o caráter superficial e de entretenimento, por não analisar ou identificar tendências e processos. Horta, no entanto, em matéria para o JB sobre a saída de Zubin Mehta da Filarmônica de Nova York, em 1989, respondia a essa demanda. Na matéria “Troca-troca de batutas”, abordava o movimento atípico do mercado de música clássica, com músicos sendo despedidos e outros pedindo as contas. Tamanho interesse pelo mercado refletia o amor de Horta pela arte, que pode ser explicado pelas suas experiências com a música ainda na infância. Com cinco anos, ganhou um acordeom e aprendeu a tocar sozinho. Aos oito, o avô o presenteou com um piano, que garantiu nas décadas seguintes apresentações em reuniões de amigos e recitais.

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Na matéria “A Otan às voltas com a 'détente' e a crise do Ocidente”, ao lado, o jornalista demonstra destreza de escrita e análise: “O problema das alianças, disse Péricles há 2.400 anos, é que a cena comum decai imperceptivelmente. A frase parece encerrar uma verdade melancólica, a respeito da Otan, apanhada em plena crise da Europa e do Ocidente, ameaçada em dois flancos, nos últimos tempos, pela defecção da Grécia e pela troca de regime em Portugal, e comemorando seu 25° aniversário, em março, em meio ao eterno duelo verbal entre franceses e americanos. E com tudo isso, 25 anos de vida é muito mais do que a História costuma conceder às alianças militares”.

Luiz Paulo Horta, em 1994, se tornou membro titular da Academia Brasileira de Música; e, de 1985 a 1990, dirigiu a seção de música do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Com sua morte, o diretor artístico da Osesp, Arthur Nestrovski, dedicou um concerto com peças de Haydn, Debussy e Manuel de Falla. Na Itália, o maestro da Orquestra Petrobras Sinfônica, Isaac Karabtchevsky, ofereceu um réquiem de Verdi. Horta morreu em casa, no Rio, e comemoraria seu aniversário de 70 anos no dia 14 de agosto, festa que preparava com entusiasmo, de acordo com amigos.