Manifestantes montam acampamento em frente ao prédio de Cabral

Após a manifestação de domingo (28), um grupo formado por cerca de 30 pessoas montou acampamento no canteiro central entre as duas pistas da Avenida Delfim Moreira, no Leblon, Zona Sul da cidade, próximo ao prédio do governador do Rio. Ao longo da tarde de hoje (29), outros manifestantes se integravam aos que já estavam acampados, fazendo coro às reivindicações. Com bom humor, eles exibiam cartazes pedindo para que os motoristas buzinassem ao passar por eles, o que era prontamente atendido pela maioria. 

Os manifestantes carregavam faixas e cartazes pedindo investimentos nas áreas da saúde e educação, além do fim da Polícia Militar e explicações sobre o caso “Amarildo”, morador da Rocinha que desapareceu durante “revista” feita por policiais da UPP na comunidade. Três viaturas da PM ficavam de prontidão na esquina da Delfim Moreira com a Aristides Espínola, onde mora  Cabral, e outras três se posicionaram mais para dentro da rua. Segundo o policial Santiago, todos estavam apenas de prontidão e não havia uma orientação específica quanto aos manifestantes. O Batalhão de Choque não estava presente.

Os manifestantes deram aos protestos desta segunda um toque cultural. Eles encenaram uma peça teatral apelidada de "Quadrilha do Cabral", em plena Avenida Delfim Moreira. Integrantes gritavam que “todos aqui serão presos por formação de quadrilha”. Enquanto interrompiam o trânsito em uma das vias da orla, sentido Ipanema, os manifestantes cantavam músicas juninas adaptadas ao ato de protesto. "Olha a bomba! É mentira. O Cabral foi preso! É mentira", cantavam os manifestantes. Já na porta do prédio do governador Sérgio Cabral, os protestantes cantaram a música "Cowboy fora da lei", de Raul Seixas.

Este é o nono protesto em frente à residência de Cabral, que já vê sua popularidade cair vertiginosamente. Para o professor Breno, que participou da manifestação apesar de não ter acampado, entende que esta queda brusca nos números do governador mostra que o sistema político, ao contrário do que muitos pensam, é frágil:

"Eu não pude dormir aqui porque tenho quatro filhos e precisava voltar para cá, mas estou presente nos protestos desde o princípio, eu vou para o meu trabalho e volto. Com a nossa força, a popularidade do Cabral caiu muito rápido, isso mostra que o sistema é frágil, e o nosso poder é maior do que muitos imagina,. A máscara do governador caiu", defendeu.

O protesto foi organizado pelo grupo Anonymous Rio, através do seu perfil no facebook. Nesta manhã, em uma nova postagem, o grupo pede apoio dos seguidores para manter a estrutura do acampamento na porta de Cabral. “Acaba de ser montado acampamento em frente à residência do Cabral. Quem puder ajudar com comida, cobertores ou qualquer outro tipo de ajuda, será muito bem vindo”, diz a postagem do grupo virtual. 

O auxílio, principalmente com comida, de moradores do bairro e de membros do grupo era muito grande. A todo momento chegavam bebidas e lanches para que as pessoas pudessem permanecer acampadas. Manoel, ator e manifestante, foi um que saiu às compras e voltou com sucos para o grupo. Ele, que não pôde passar a noite, disse que sempre ajuda com o que pode. Membro do movimento "Reage Artista", que luta por melhorias para o setor cultural, incluindo uma distribuição de editais mais justa, o jovem simboliza a pluralidade das reivindicações da manifestação:

"Acho que nós temos que lutar para mudar essa política petrificada. Agora que já chegamos tão longe não podemos recuar. Nós somos os agentes do mundo e a cada escândalo de corrupção do Cabral e truculência da repressão policial, nós nos unimos ainda mais. Eu, que não era muito politizado antes de entrar para o "Reage Artista", enxergo que cresci muito enquanto cidadão e pessoa. Posso dizer que o Brasil de hoje já é melhor que o de ontem.", explicou Manoel.

O cantor, Raul, encontrou outra forma de ajudar, prestando auxílio como socorrista. Ele, que participou de um curso de primeiros socorros, se juntou ao grupo montado ao longo dos protestos, "S.O.S Manifestações", que conta com cerca de 25 pessoas, incluindo médicos, biólogos, veterinários, estudantes de medicina e bombeiros. O jovem, que dormiu no acampamento, diz que está lutando pelos seus direitos e se anima com o coletivo que se juntou à causa.

Os manifestantes estavam na expectativa do protesto que foi marcado para a tarde desta segunda, na Rocinha, em reivindicação por maiores explicações do caso Amarildo. Após a concentração em frente à comunidade, as pessoas seguiriam até a casa de Cabral, recheando o grupo dos acampados. No entanto, essa manifestação foi transferida para quinta-feira.