Transplante de córnea no Rio longe do parâmetro nacional

Enquanto São Paulo se destaca, Rio sofre com falta de apoio político

O Brasil, hoje, ocupa o segundo lugar em volume de transplantes de córnea no mundo. Infelizmente, esse número não é acompanhado pelo estado do Rio, que apresenta dados bem inferiores ao parâmetro nacional. Apesar do esforço de profissionais da área, a falta de investimento político explica as longas filas de espera para esse tipo de procedimento.

Em termos de transplantes de córnea, Rio de Janeiro e Bahia são os dois piores estados do país, onde o tempo de espera para uma cirurgia pode chegar a cinco anos. Ao contrário do que acontece com órgãos como coração, fígado e rins, a córnea pode ser doada tanto em caso de morte encefálica quanto de parada cardíaca. Quando devidamente armazenadas pode-se aguardar até 14 dias para o transplante. Todos esses fatores deveriam representar um facilitador para que as filas de espera para córneas fossem praticamente nulas.

Em 2012, o estado fluminense ocupou o último lugar no número proporcional de operações do país, com 16,8 transplantes por milhão de população. Em quantidade absoluta, o índice chegou a 269, porcentagem insignificante dentro dos 15.281 procedimentos realizados no Brasil durante todo o ano, segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT).

Em 2013, houve 108 cirurgias no Rio, o que significa uma média semelhante ao do último ano.  A baixa captação de córnea, aliada a ausência de um banco de dados de maior capacidade e de hospitais aptos a realizar a cirurgia explicam a defasagem nesse tipo de procedimento no Rio, que, no entanto, apresentou evolução significativa em transplantes de outros órgãos e tecidos. Para o oftalmologista Bruno Fontes, membro da comissão científica dos Congressos Brasileiro e Pan-Americano de Oftalmologia, falta boa vontade política aos governantes, e o excesso de burocracia dificulta o desenvolvimento do setor:

“Eu participo de diversas reuniões, mas nunca conseguimos avançar nas questões. Sempre falta aval da vigilância sanitária para conseguirmos um hospital para operações. Se tentamos recorrer à rede particular, o fiscal não comparece e também não dá a liberação. Temos problemas de infraestrutura, ausência de pessoal e excesso de burocracia. O Hospital particular Silvestre é o único do estado que realiza transplantes de córnea”, reclama o médico. 

Atualmente, no estado do Rio, o único banco de dados existente fica em Volta Redonda que, apesar de realizar um tremendo esforço, não tem capacidade para atender a alta demanda. Existe um projeto de inauguração de um novo banco de dados de córnea no INTO, que já possui um coordenador designado, mas está em fase de montagem de equipe e treinamento de pessoal.

Referência nacional, o sistema de transplante em São Paulo, mais precisamente em Sorocaba, está atraindo pacientes de todo o país. Considerada uma ilha de excelência, os centros de operações do SUS cidade do interior paulista possuem infraestrutura adequada, profissionais valorizados e alto poder de captação de tecidos:

"Cidades como São Paulo e Sorocaba não têm mais fila de espera. A captação e a presença de equipes e centros especializados suprem a necessidade apresentada. Foram feitos investimentos em equipes de captação e comunicação à família, tecnologia, instalações, resultando em uma estrutura organizacional de primeiro mundo”, explica Bruno Fontes, que lamenta a disparidade do modelo paulista em relação ao fluminense. O oftalmologista ressaltou que este é um modelo reprodutível, e que já tentou trazer os profissionais de Sorocaba para o Rio de Janeiro para um período de workshops, visando à troca de experiências, o que que não se concretizou devido a “problemas burocráticos e de administração pública”.