População ribeirinha de Xerém passa a noite limpando casas e ruas

Dona Angelita de Oliveira olha a sua casa, ao lado do rio Capivari, no distrito de Xerém, em Duque de Caxias (RJ), totalmente invadida pela lama num misto de frustração e alívio. “Perdi tudo o que eu construí, mas se eu estivesse aqui na noite que tudo aconteceu, não estaria aqui conversando com você. Nem o meu marido, que é cadeirante”, explica a dona de casa.

Ela e o marido, Moisés, passaram o Réveillon na casa de amigos, em outro município. “Me ligaram às 3h da manhã. Meu marido está sem a cadeira de roda que tinha acabado de comprar. Ainda bem que os amigos e os vizinhos estão me ajudando a limpar tudo isso”, diz, agradecida.

O mutirão de solidariedade trabalhou, sem parar, por toda a madrugada. “Dormi umas duas horas apenas, não dá nem para parar, olha a situação disso aqui”, aponta o vendedor Joelson Ribeiro para uma Kombi totalmente envolta em lama, galhos de árvores e eletrodomésticos. “Se a gente não se ajudar, não tem jeito, não sei quando vai chegar ajuda aqui”, completa ele, morador da rua Venância, uma das mais atingidas pela cabeça d'água que inundou o município da região metropolitana do Rio de Janeiro.

Enquanto do outro lado da ponte, que liga os dois trechos do Rio, o prefeito Alexandre Cardoso coordenava os trabalhos de recuperação do distrito, do outro, os moradores ainda trabalham sozinhos. Voluntários de grupos de salvamento tentam ajudar, muito embora a prioridade seja o salvamento de vidas e a busca por eventuais corpos de desaparecidos.

“Eu costumava pescar nesse rio aqui (Capivari), aí foram construindo, construindo, e chegou nessa situação aí. Agora vou passar não sei quantas horas, com 70 anos de idade, recolhendo tudo, com dor nas costas, mas não posso parar, não tem quem faça por nós, pelo menos por enquanto”, conta Oswaldo Lima, resignado, enquanto recebe a solidariedade de um vizinho.

”Passei a noite toda limpando minha casa, um pouco mais no alto, agora é hora de ajudar os amigos. Tem que ser dessa forma, um ajudando o outro”, afirma o pedreiro Clayton Jesus Silva, enquanto recebe um copo de água de um voluntário da pastoral que auxilia os desabrigados.

Além do rio Capivari, outros dois, Inhomirim e Saracuruna, também transbordaram em Xerém, distrito de Duque de Caxias, o mais afetado pela chuva que, em todo o Estado do Rio, afetou um total de 200 mil pessoas. Somente em Caxias, são mil pessoas desalojadas, e outras 270 desabrigadas, cujas casas estão danificadas ou totalmente destruídas. A prefeitura confirma, até o momento, que uma pessoa morreu por causa da forte chuva. 

Histórico de deslizamentos

Em janeiro de 2011, a Baixada Fluminense enfrentou a maior tragédia climática da história do Brasil. Foram 918 mortos e mais de 215 desaparecidos após as fortes chuvas que atingiram sete municípios da região. As cidades mais atingidas foram Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis, Bom Jardim, Areal, Sumidouro e São José do Vale do Rio Preto.

No ano anterior, em 2010, uma série de deslizamento deixou 30 mortos em Angra dos Reis nas primeiras horas do dia 1º de janeiro. O deslizamento de uma encosta atingiu uma pousada e sete casas na Ilha Grande, matando pelo menos 19 pessoas. No continente, 11 pessoas morreram em outro desmoronamento.