Crack e fezes, obstáculos do Caminho Niemeyer, em Niterói

Centro Petrobrás de Cinema, que compõe o projeto, está entregue às baratas

Niterói, que se orgulha de ser a segunda cidade com o maior numero de obras de Oscar Niemeyer, não cuida do acervo que o arquiteto projetou. Um exemplo é o  Centro Petrobras de Cinema, que compõe o Caminho Niemeyer, conjunto de sete por ele projetadas, e que hoje está literalmente entregue às baratas, sem qualquer utilização prática pela população, a não ser por dependentes de crack e de bebidas e  outras drogas. O centro custou à estatal R$ 12 milhões e não está terminado. 

Na última quinta-feira (6/12), sem qualquer tipo de impedimento, a equipe de reportagem do Jornal do Brasil  passeou pelos 8.300 metros quadrados do prédio construído em formato de rolo de filme, no bairro do Gragoatá. Deparou-se com o total descaso com o que já foi construído: vidros quebrados pelo chão, instalações elétricas danificadas, janelas abertas, garrafas de bebida alcoólica, portas escancaradas, pichações nas paredes e dejetos humanos espalhados por cada canto. Definitivamente, frequentar o ambiente  não é adequado. 

"Alguns mendigos costumam passar a noite ali", garantiu o garçom de um bar da região, que não se identificou. 

O presidente do Grupo Executivo do Caminho Niemeyer, Selmo Treiger, ex-secretário de Fazenda do município, afirmou que a Fundação de Artes de Niterói (FAN) já publicou edital para concessão do espaço à iniciativa privada. Dono da SDTreiger, incorporadora imobiliária que constrói, neste momento, oito novos edifícios na cidade, ele garantiu enxergar no Centro Petrobras de Cinema um prédio em "perfeitas condições e pronto".

"Ninguém entra ali", disse ele, contrariando as imagens das fotografias feitas pelo JB no local. Com o humor alterado após ser contestado, o responsável pelo Caminho Niemeyer, em tom sarcástico, continuou, para depois desligar o telefone abruptamente, encerrando a conversa com o jornal: "Dizer que o prédio está abandonado e mal conservado é puro denuncismo político. Mas deve estar sim, já que você entende mais do assunto do que os arquitetos. O lugar está aberto a quem quiser visitá-lo com um especialista técnico, que irá atestar isso".

A Prefeitura Municipal de Niterói, através de sua assessoria de imprensa, não soube responder quando serão inauguradas as obras. Também ficaram sem respostas as indagações sobre a responsabilidade pela segurança e manutenção do Centro Petrobras de Cinema.

Praça dos assaltos

Os problemas, infelizmente, para tristeza do legado de Niemeyer, não estão restritos ao Centro Petrobras de Cinema. A Praça Juscelino Kubitschek, onde o arquiteto é homenageado com uma estátua de bronze sentado ao lado do ex-presidente, é conhecida como 'Praça dos assaltos'.

"Depois que escurece, ninguém tem coragem de passar por aqui sozinho", relatou Catharine Gonzales, aluna de Biologia Marinha da Faculdade Maria Thereza (FAMATH). "É muito perigoso, e os assaltos são rotina".

Frequentador da Praça JK, que liga a Estação Araribóia das Barcas ao Gragoatá, onde fica um dos campis da Universidade Federal Fluminense (UFF), Marco Aurélio Reis Ribeiro, de 28 anos, confirma que o logradouro desenhado por Niemeyer tornou-se ponto de consumo de drogas.

"A mendigada que dorme por aqui usa todo tipo de drogas. Desde o álcool até o crack", disse ele, que anda de skate na praça. "Quando estamos de rolé de skate por aqui ainda é mais tranquilo, os usuários ficam na disciplina, respeitam os pedestres".

Audiovisual prejudicado

O secretário de Cultura de Niterói desde o início da atual gestão do prefeito Jorge Roberto Silveira (PDT), Cláudio Valério Teixeira,  lamentou o fato de o Centro Petrobras de Cinema, que tem previsão de receber seis salas, ainda não estar em funcionamento.

"Seria bom se já operasse. Faltam salas de cinema na cidade", atestou o secretário, que é também artista plástico e restaurador. "As salas de cinema que temos hoje privilegiam apenas o circuito blockbuster".