Manifestação ou carnaval dos royalties?

A manifestação de segunda-feira (26) organizada pelo governo do Rio de Janeiro contra a lei que muda a distribuição dos royalties do petróleo trouxe algumas reflexões a quem esteve presente.

Se, por um lado, o protesto é absolutamente legítimo por se tratar da defesa de um recurso essencial ao orçamento fluminense, especialmente no que diz respeito aos contratos já firmados sobre a extração de petróleo, não ficou muito clara a importância da participação do povo fluminense no evento. 

As principais vias do coração comercial da cidade foram bloqueadas e milhares de servidores públicos tiveram ponto facultativo declarado para se unir pelo Rio. A cobrança das passagens de trem e de metrô foi abonada no dia. Muitos ônibus fretados trouxeram  cidadãos de outros municípios, com direito a lanches bancados com o dinheiro público.

Segundo o site UOL, o custo indireto foi R$ 50 milhões. O governo já afirmou que o gasto direto com o evento foi de R$ 780 mil. 

Quem, do palco, via a concentração popular na Cinelândia, deparava-se com uma plateia desanimada e muito mais interessada nos shows programados do que na luta que se pretendia travar ali. Os mestres de cerimônia até se esforçavam para arrancar alguma emoção dos presentes, enumerando conquistas do governo que podem ser prejudicadas sem o dinheiro dos royalties: o teleférico do Complexo do Alemão; as UPPs; o Parque de Madureira; o pagamento de aposentados e pensionistas; o investimento nas áreas de saúde; a educação e a segurança pública; as obras de infraestrutura; a linha 4 do metrô; a Copa do Mundo e a Olimpíada.

Mas, nem com esta lista infindável de ameaças, as pessoas manifestavam a insatisfação que se esperava. Só reagiam mesmo quando os organizadores, através de um canhão, atiravam camisetas no meio da massa. E quem gritasse mais alto também levava para casa um brinde.

Era como se para os verdadeiros interessados na questão - a população fluminense - a segunda-feira fosse só festa. Pessoas bebendo, comendo e dançando ao som de músicas festivas e que "simbolizam" a cultura carioca. Os 11 shows contratados pelo governo do estado confirmam a premissa de que foram eles que mobilizaram a população, muito mais do que a causa em questão. 

Sem dúvida, a alegria é uma das marcas registradas do Rio e do modo de ser carioca. Mas vale se perguntar qual a validade de tamanho esforço do governo para sensibilizar a população, se, no final das contas, o diálogo com o povo ainda é pão, circo, e, no caso do Rio, muito carnaval.