Em Friburgo muito alarde e menos estragos das chuvas

Moradores pedem melhorias. Prefeitura diz que principais obras são do governo estadual

A chuva forte que assolou a serra fluminense desde segunda-feira(12) trouxe o medo e o trauma de volta à mente dos moradores de Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo.

Na catástrofe de 2011, 900 pessoas morreram e mais de 15 mil ficaram desabrigadas nas três cidades. Porém, o alarme e o medo podem ter sido maiores do que as consequências das chuvas deste ano.

Fernando Cavalcante, presidente do Conselho Municipal do Meio Ambiente de Nova Friburgo,  garante que não há motivo para o alarme que está ressoando na mídia. Segundo ele, o balanço foi positivo nas 24 horas após a chuva.  “Não houve vítimas fatais na cidade. Os eventos de deslizamento de pedras eram previstos . Os poucos feridos levemente sabiam que estavam em área de risco na hora do risco maior. Há quinze dias que a defesa civil vem fazendo simulações nos bairros de maior risco", enumerou Cavalcante. 

Ele também considera que, para alguns moradores, ainda traumatizados com a tragédia de 2011, “a reação das pessoas é maior do que a chuva propriamente dita. A dor é muito grande, principalmente quando chove forte”. 

 As sirenes de alerta em caso de calamidade, instaladas por todo o município, funcionaram muito bem, segundo Cavalcante. “Dessa vez, estivemos bem mais preparados. Até em áreas sem tanto risco as sirenes tocaram” 

Verbas não foram distribuídas

O presidente do Conselho lembra que a maior parte das obras a serem feitas em Nova Friburgo é de responsabilidade do governo do Estado: a Empresa de Obras Públicas (Emop), com as casas em áreas com maior risco de deslizamento; O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) com a questão dos rios, e o Departamento de Estradas e Rodagem (DER) com as estradas.

Cavalcante denuncia que cerca de R$ 10 milhões foram destinados ao Governo do Estado para que serem distribuídos às cidades da serra fluminense e boa parte desse dinheiro, segundo ele, ou não foi empregado até agora, ou só foi usada em obras de reconstrução recentemente, deixando a população órfã de melhorias: 

“Os setores do poder público não se comunicam. O Governo do Estado parece que vem aqui e não dá satisfação a ninguém. Todos sabiam que a prefeitura da cidade não tinha recursos para fazer as mudanças necessárias. O Governo do Estado precisa agir com relação a isso”, comentou Cavalcante.

Maria Angélica Gomes, moradora do Bairro de Lumiar, concorda com Cavalcante: 

“Estão alarmando mais do que o necessário. Nas redes sociais, estão postando até fotos de enchentes passadas. Isso acaba deixando as pessoas muito assustadas, e isso não é nada bom para quem já passou por tantos dramas em 2011”, disse a moradora.

“Cidade está abalada psicologicamente”

Maria Angélica, porém, ressalta que as melhorias na cidade são extremamente necessárias, e cita o caso de um terreno, no bairro Parque das Flores, com 250 novas casas para os que perderam suas residências no ano passado. Até a presente data, no entanto, as obras não foram concluídas.

Jorge José Camelo, de 61 anos, é o presidente da Associação de Moradores do Parque Residencial Maria Tereza, próximo ao distrito de Conselheiro Paulino. Ele conta que, em 2011,  o local teve 6 residências destruídas, com duas vítimas fatais. E alerta: a cidade ainda precisa de mais: 

“Muitas obras precisam ser feitas por aqui. Há uma situação dos eucaliptos aqui perto do parque que precisam ser cortados. Só quem tem a casa debaixo de um desses eucaliptos sabe o que é o perigo”, relatou Camelo, que lembra ainda que muitos desabrigados nas enchentes de 2011 ainda não receberam o dinheiro relativo aos aluguéis sociais. 

Alessandra Jardim, de 37 anos, também mora no Parque Maria Tereza, e define o que falta para que a situação na cidade mude. “Precisamos é de mais vistoria para que as pessoas não construam casas em lugares inadequados”

Felipe Alves, de 21 anos, estudante, admite a fragilidade da cidade: Nova Friburgo está frágil, tanto na infraestrutura como no psicológico das pessoas”, conta ele, que lembra uma coincidência macabra ao falar sobre a preparação da cidade para outra chuva forte:  

“A chuva de 2011 também começou em uma terça-feira e, no mesmo dia, um prédio caiu com todas as forças da Defesa Civil sendo chamadas. Acredito que a cidade não esteja preparada, pois em muitas comunidades persistem as áreas de risco, encostas a serem contidas, rios a serem dragados, bueiros a serem desentupidos. Há muita coisa a ser feita”, lamenta Alves, preocupado. 

Leonardo Lopes, de 25 anos, é publicitário e dá um exemplo prático da falta de cuidados reais que a cidade tem recebido: 

“O desentupimento de bueiros é algo simples de ser feito. Mesmo assim, na semana passada, após uma chuva intensa de aproximadamente 10 minutos, o centro da cidade ficou alagado. Não foi feita muita coisa em Friburgo não”, conta Lopes, que trabalha no bairro do Ypu, próximo ao centro da cidade.

Entre os principais pontos de apoio, estão as paróquias da cidade, como a igreja de Santa Terezinha, no distrito de Conselheiro Paulino. O Padre Miguel Ângelo Zubiarrain, através de seu secretário, declarou que apenas uma família foi procurar a igreja, definida como ponto de apoio em caso de enchente: 

“A família não ficou aqui, no entanto, as pessoas decidiram ficar na casa de parentes. Hoje, não estamos com nenhuma família abrigada aqui”, conta o representante da paróquia, lembrando que, em 2011, 300 pessoas foram alojadas na igreja durante as chuvas. Ele reconheceu a melhora desde o último ano: 

“Desta vez eles estavam mais preparados. Naquela época, não houve preparo nenhum”, atestou o pároco.

Prefeitura se defende

A prefeitura de Nova Friburgo contabiliza, até agora,11 famílias alojadas em abrigos após a chuva, em um total de 46 pessoas. Em nota, ela afirma estar providenciando abrigos caso seja necessária a permanência dessas pessoas. Às 14h50 desta quarta-feira, a cidade deixou o estado de alerta e passou para o estado de atenção, diminuindo portanto a periculosidade da situação após a queda d'água.

Sobre os aluguéis sociais, a prefeitura informou que, atualmente, 2.978 pessoas recebem a verba para realocações após as chuvas de 2011. Segundo os dados da prefeitura, há 120 pessoas que não receberam o montante referente ao aluguel, mesmo com toda a documentação necessária. Nenhuma explicação oficialmente foi dada. Outras 114 estão em falta com a documentação e também não receberam o aluguel. 

Segundo as promessas da prefeitura, o terreno no bairro Parque das Flores que será usado para receber os moradores que perderam suas casas na chuva de 2011 terá pelo menos 50 casas entregues até o fim de 2012. A empresa responsável pelas obras, a RN Serviços e Manutenções Prediais, prometeu a construção de 250 casas no local mas, em maio, assinou o contrato para fazer os primeiros 50 imóveis. Recebeu R$ 1.543.741,82 e tinha um prazo de 120 dias, que venceu em setembro sem que as casas tenham sido entregues.