Clima de tranquilidade na ocupação do Bope no Jacarezinho
Foram hasteadas bandeiras do Brasil e do Estado do Rio numa casa vazia, simbolizando a ocupação
Por volta das 7h desta terça-feira (16), o Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro ocupou – de forma pacífica – a favela do Jacarezinho. O Bope veio para substituir e dar continuidade ao trabalho da Polícia Civil, que se estabelecia no local desde o último domingo (14).
Sem interferência da polícia, moradores, trabalhadores além de firmas, colégios e o comércio do Jacarezinho seguiam sua rotina normal no início do dia. Policiais Civis da Coordenadoria de Recursos Especiais, que deram apoio à substituição das equipes de policiais, disseram que a ocupação foi calma. “A ocupação foi bem tranquila. A participação dos moradores ainda é bem pequena, porque eles estão em fase de adaptação. Por isso aqui ainda impera a Lei do Silêncio. Não tem simpatia, mas também não há hostilidade da parte deles”, disseram os policiais.
A maioria dos residentes da favela, ainda intimidada pela marca de anos de tráfico no bairro, não quis falar muito sobre o tema, ou tampouco se identificar. Alguns, porém, disseram que a pacificação “é muito boa” para a favela, que estava “mais bonita e limpa”, como descreveu uma mulher. Já outra moça, que preferiu informar apenas o seu primeiro nome, Angelina, disse, sem dar mais explicações, que a ocupação é “péssima para a comunidade, e que antes, sem policiais por perto, era muito melhor”.
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Francisco Mendes, com 23 dos seus 44 anos de idade vividos no Jacarezinho, afirmou que a entrada do Bope na favela melhora o bairro: “Melhora sim. Com certeza. A limpeza agora é feita pela Comlurb, porque as ruas estão mais tranquilas graças à polícia, fazendo com que os serviços cheguem aqui. O canal tinha lama até o alto e na minha rua a água do esgoto e da chuva vinha até a canela”, contou o rapaz. Edna Carvalho, de 53 anos, também moradora do bairro, afirmou apenas que a ocupação “melhora” o local.
Uma moradora, outra que não quis se identificar, comentou que agora sem os “cracudos” a pista próxima à favela e ao bairro de forma geral ficará bem melhor. “Fazer o quê, né? Vai ser melhor assim. Eles (os traficantes) não mexiam com os moradores, a não ser que alguém vacilasse, mas agora é hora de trazerem atividades e serviços para as crianças do bairro” afirmou ela. Uma funcionária de uma padaria local disse ainda que não havia confusão com os traficantes, mas que os que circulavam perto do estabelecimento, às vezes, geravam incômodo ao seu chefe porque “pediam muitos produtos da padaria e não pagavam, dando prejuízo ao dono”.
A ação do Bope
O número oficial do contingente de policiais na ocupação do Jacarezinho não foi divulgado, mas, de acordo com um policial, duas equipes do Batalhão de Operações Policiais, que representam cerca de cem pessoas no efetivo, ocuparam junto a outras polícias a favela do Jacarezinho nesta manhã. Além disso, pelo menos dois helicópteros sobrevoavam a área, em apoio à operação.
Cavalarias da Polícia Montada do Rio de Janeiro também fizeram parte do esquema de ocupação no Jacarezinho. Segundo o major Ivan Blaz, até o fim da varredura do Bope desta terça-feira foram apreendidas “uma moto roubada e cargas de drogas que ainda não tinham sido quantificadas”, informou.
Na comunidade Azul, foram hasteadas na laje de uma casa vazia, cedida por uma moradora do local, as bandeiras do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro, como símbolo da ocupação da polícia no local. Lá, a base provisória do Bope foi escolhida pelos policiais por ser um ponto estratégico na favela, já que é um dos locais mais altos.
De acordo com o major Blaz, a ocupação foi realizada de forma tranquila devido a “todos os esforços e muito trabalho dos policiais na área de planejamento e logística, para garantir a segurança da população”. Ainda conforme o major, “está prevista para janeiro pelo menos a instalação de duas UPPs na região de Manguinhos e Jacarezinho”.
Serviços ganham a favela
Uma atividade notável no momento de pacificação de favelas do Rio de Janeiro tem sido a oferta de serviços de TV, Internet e telefonia, que prontamente aparecem no local, após o fim dos “gatos” impostos pelo tráfico de drogas. A falta de segurança impedia a chegada das empresas formais, assim como a milícia, que obrigava moradores de determinadas áreas a utilizarem seus serviços.
De acordo com um funcionário de uma empresa de TV a cabo, em serviço junto à sua equipe desde domingo (14), há interesse da população em adquirir os pacotes à venda. “Muitos moradores estão interessados em comprar o serviço. Estou aqui desde domingo e a aceitação tem sido boa”, comemorou o vendedor.
Outra presença que se torna mais abrangente após a pacificação é a do serviço público. Nesta manhã, pôde-se observar por toda a favela funcionários da Comlurb e da Rioluz, entre outros, despertando, inclusive, a comunicação entre moradores e trabalhadores destes órgãos que antes não chegavam às ruas. Moradores foram vistos indagando a funcionários da Prefeitura do Rio sobre como solicitar a atenção de órgãos para consertos de postes de luz e a limpeza em suas ruas, por exemplo.
