Mortes em UPPs estão caindo, apesar de recentes assassinatos

Isso é o que mostra pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública com Uerj

No último dia 4 de setembro, Flávio Duarte, o "Flávio da padaria", com 40 anos, presidente da Associação Comercial dos Macacos, no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, foi assassinado com cinco tiros. Dois dias depois, na mesma comunidade, Gilmar Paiva de Campos, de 54 anos, conhecido como "Russo", foi morto a tiros dentro de casa, no local conhecido como Pau da Bandeira, próximo à Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

Os dois crimes assustam aqueles que acreditavam que com as Unidades de Policia Pacificadora (UPP) esse tipo de drama estaria encerrado. As vítimas podem ter sido mortas justamente por terem bom relacionamento com os policiais da comunidade, que frequentavam a padaria de Flávio. Nos Macacos, a UPP chegou em novembro de 2010. 

Apesar destes dois assassinatos, os números levantados pela pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública com o Laboratório de Análise da Violência da Uerj mostram que os homicídios nas favelas com UPP tem caído. No período de seis meses após a pacificação, os casos de morte violenta a até 1km da UPP dos Macacos caiu 53% - eram 13 e foram registrados apenas 6. O número de roubos também caiu 27,2%. 

Mas, em compensação, os crimes menos violentos apresentaram aumento. Os furtos subiram 26,9%; as lesões corporais dolosas 14,4%; e as vítimas de violência doméstica cresceram 35%. O número de estupros também cresceu de 7 para 11 depois da chegada da UPP dos Macacos. 

Na Cidade de Deus, um levantamento das ocorrências no primeiro ano após a pacificação mostra resultados parecidos. O número de homicídios registrado a até 1km da UPP caiu, embora continue alto: eram 22 e passaram a ser 14 na comparação com o mesmo período do ano anterior. Também caíram os registros dos casos de estupros: eram 13 e passaram a ser 8. Já os outros crimes também aumentaram.

Perto de completar quatro anos, o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) – iniciado em 2008 no morro Santa Marta – já contabiliza bons resultados. O Instituto de Segurança Pública registrou no primeiro semestre deste ano o menor número de homicídios no Rio desde 1991, início da série histórica. Um resultado que certamente tem ligação com a implantação das UPPs, como mostra o levantamento. Ele, por sua vez, aponta para o crescimento de outros crimes como roubo, estupro e violência contra pessoa nas áreas com UPP.

Pequenos delitos aumentam sem o 'Dono do Morro'

A pesquisa analisou mensalmente os registros de crimes ocorridos em 13 favelas pacificadas (Andaraí, Batam, Borel, Chapéu-Mangueira/Babilônia, Cidade de Deus, Santa Marta, Formiga, Macacos, Pavão/Pavãozinho/Cantagalo, Providência, Salgueiro, Tabajaras e Turano) durante 66 meses. A média dos casos de homicídios nestas áreas teve grande redução, passando de quatro ou mais por mês para menos de dois. A redução maior, como esperado, acontece com mortes em intervenções policiais, que caíram de 0,5 por mês, para quase zero depois do estabelecimento da polícia nas comunidades.

A exemplo do que aconteceu nos Macacos e na Cidade de Deus, o fim do controle pelo tráfico resultou também em um aumento dos registros de crimes não letais contra a pessoa e contra a propriedade nas áreas de UPP. Em média, as vítimas de lesões dolosas triplicaram, o número de estupros mais que dobrou e os furtos subiram 64%. Já os casos de roubo tiveram queda de 46%.  Uma explicação possível é que após a entrada da polícia, a favela deixa de ter a presença intimidadora do chefe do tráfico agindo como mediador e juiz nos casos internos. Decidindo pela expulsão, tortura ou morte dos acusados.

Após a instalação da UPP na Rocinha, a reportagem do JB entrevistou moradores quanto ao clima na comunidade. O consenso era de que houve diminuição da violência armada, mas as reclamações evidenciavam o aumento de outros crimes: “Não havia roubos e assaltos aqui. Ultimamente têm acontecido mais roubos à residência”, contou uma moradora.

O estudo também faz uma análise da posição geográfica das UPPs, levantando uma questão curiosa. Apesar de historicamente serem as regiões mais violentas, as Zonas Norte e Oeste são justamente as duas áreas menos contempladas pelas UPPs. Na Zona Norte as unidades se concentram apenas no entorno do Maracanã, evidenciando a motivação em garantir a segurança dos locais de interesse turístico e que receberão os grandes eventos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.

Longe da Zona Sul o cenário não mudou

De acordo com dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública em agosto, os bairros cujo policiamento fica a cargo do 7° BPM (São Gonçalo) - onde não existe UPP - registraram um aumento de quatro dos seis crimes classificados como mais violentos.  O registro de homicídio doloso aumentou para 24 casos (de 143 para 167) e tentativa de homicídio teve 10 casos a mais (de 119 para 129 casos). O mesmo aconteceu com os registros de lesão corporal dolosa, com crescimento de 14 casos (de 2153 para 2167). Nos crimes menos violentos, o panorama é o mesmo: o roubo a pedestres passou para 576 casos, assim como o roubo de veículos (aumento de 491 casos).

Região que vive há pelo menos cinco anos a guerra entre quadrilhas de três facções rivais, a AISP 9, que engloba bairros como Rocha Miranda, Madureira, Oswaldo Cruz e Cascadura, só conseguiu diminuir os casos de homicídios. Já os registros de tentativa de homicídio mais que dobraram. O número saltou de 65 casos no primeiro semestre de 2011 para 141 no mesmo período de 2012. Os crimes de lesão corporal dolosa, estupro e roubo aumentaram. O crescimento de registros foi de 32, 40 casos e 425 casos respectivamente.