PM classifica policiais formados lotados na Rocinha como estagiários

Policiais formados pelo CFAP recebem como alunos: uma diferença de mais de R$ 700

Os policiais militares formados pelo Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP) e que trabalham na ocupação da Rocinha, na Zona Sul do Rio, e do complexo do Alemão, na zona Norte, são classificados pela Polícia Militar (PM) como estagiários. Com isto, eles fazem o policiamento nas duas áreas, mas ainda recebem como se alunos fossem. A diferença – R$ 660 – é mais do que um salário mínimo.

“Os alunos da Turma VII - 2011 foram para a Rocinha fazer Estágio Prático-Operacional e ainda recebem como recrutas, pois estão sendo incluídos no sistema”, explica a assessoria de imprensa da corporação. “Eles receberão todos os atrasados referentes aos meses que receberam como recrutas”, promete a nota enviada ao Jornal do Brasil.

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Mas, os próprios formandos, sem se identificarem, alegam que há companhias formadas depois da Turma VII cujos membros recebem normalmente os vencimentos de soldados prontos da PM. A diferença é substancial, mais de um salário mínimo: o aluno tem um soldo bruto de R$ 1.040, enquanto o soldado pronto recebe R$ 1.700. Como ainda há descontos em ambos os salários, os "estagiários” recebem menos de R$ 1.000.

A justificativa da PM mostra que o governo, para ativar as UPPs, usa os recém-formados independentemente de estarem preparados devidamente para situações da rotina do dia-a-dia. Esses “estagiários” chegam às favelas sem qualquer experiência de rua e se defrontam com situações específicas.

Conforme o JB noticiou, há um mês e meio, uma guarnição foi atacada por bandidos na Rocinha. Ninguém ficou ferido, mas os marginais abriram fogo em uma tarde de domingo em um local com muitos civis. Efetuaram mais de 60 disparos. O episódio demonstra que a pacificação não é completa e que os policiais ainda correm riscos. 

Às reclamações da falta de pagamentos dos benefícios de auxílio transporte, a PM reafirma que se trata de um direito válido para todos os policiais: "O auxílio-transporte de R$ 100 é destinado a todos os policiais, os que não estiverem recebendo por algum problema técnico devem solicitar ao comandante de sua unidade", informa a nota.

Comida compartilhada

Os policiais também se queixaram da falta de qualidade – e da quantidade – da comida oferecida pela corporação. Segundo os policiais, há casos de colegas acometidos com infecção intestinal após a refeição. No entanto, a assessoria da PM, para rebater a denúncia, apresentou um argumento inusitado:

“O major Édson Santos, que comanda o policiamento na Rocinha, informou que almoça todos os dias a mesma comida destinada à tropa. O oficial informa que jamais encontrou comida estragada”.

À exigência de os soldados serem obrigados a permanecer em pé doze horas de serviço, a assessoria explica como medida para protegê-los. “O policiamento em viatura é sempre em deslocamento. A norma estabelece que, uma vez parada, os policiais devem ficar fora da viatura e não sentados dentro, já que é uma atitude que gera risco para eles”.

Equipamento 

Por fim, a assessoria da corporação garante que as pistolas e coletes à prova de bala novos foram destinados aos policiais que foram designados para a ocupação da Rocinha, no início da operação. No entanto, não revelou quando o material foi adquirido. O JB apurou que uma empresa doou os coletes. “Ao iniciar a ocupação a PMERJ destinou arma e coletes para todos os policiais. PST 840 novas (na caixa) e coletes novos no saco plástico”, diz a nota sem, contudo, confirmar a doação dos coletes nem, tampouco, explicar a queixa de que alguns destes equipamentos têm falhado.